literatura norte-americana

‘Ellen West”, Frank Bidart

 

 

Frank Bidart é um poeta americano nascido a 1939. Celebrado por uma obra poética que se vem construindo desde meados da década de 1970, Bidart ganha reconhecimento nos meios literários por textos como Ellen West – denso poema narrativo no qual o monólogo de uma mulher que sofre de anorexia é seguidamente jugulado por pareceres médicos. Os registros atritantes, a disposição fragmentária e a temática devastadora do texto – aliados a uma certa frieza verificável tanto no tom quanto na própria disposição progressiva, aparentemente imparável dos cacos de texto rumo a um desfecho aterrador – fazem de Ellen West uma experiência de assombrosa densidade emocional.

De Bidart, não conhecemos nenhuma tradução para o português. A íntegra do poema – publicado originalmente no segundo livro do autor, The Book of the Body – pode ser acessada aqui.

 

Ellen West

 

“Amo doces, –

……………. paraíso

seria morrer num leito de sorvete de baunilha…

 

Mas meu verdadeiro eu

é magro, todo perfil

 

e gestos gráceis, o tipo da menina

loura elegante cujo

……………………….corpo é a imagem da própria alma.

 

– Meus médicos dizem que preciso desistir

deste ideal;

………………..mas eu

NÃO VOU … não posso.

 

Apenas para meu marido não sou meramente um “caso”.

 

Mas ele é um tolo. Desposou

carne tomando-a por esposa.

 

 

 

Por que sou menina?

 

Pergunto a meus médicos, e eles dizem

que não sabem, que trata-se apenas de um “dado incontornável”.

 

Mas são tantas

as implicações -;

…………………….e às vezes

chego mesmo a me sentir como uma menina.

 

 

 

Agora, no início do trigésimo segundo ano de vida de Ellen, sua condição física deteriorou-se ainda mais. Seu uso de laxantes sofre um aumento desmedido. A cada noite ela ingere de sessenta a setenta cápsulas de um determinado laxante, o que acarreta em vômitos torturantes à noite e diarreia violenta pelas manhãs, frequentemente acompanhadas de debilidade cardíaca. Ela emagreceu a ponto de tornar-se esquelética, e pesa apenas 46 quilos.

 

 

 

Há mais ou menos cinco anos eu estava num restaurante

comendo sozinha

…………………….com um livro. Eu não

era casada, e isto era costume meu…

 

– Eu recusava convites

para jantar, para poder comer sozinha;

 

Eu me permitia duas fatias de pão com

manteiga, no início, e três bolas

de sorvete de baunilha, no final, –

 

………………………………………….sentada ali sozinha

com um livro, tanto dentro como

fora do livro, atendida, observando

ociosa as pessoas,-

 

…………………………………quando um rapaz atraente

e uma mulher, ambos vestidos com elegância,

sentaram-se ao meu lado.

………………………………….Ela era linda –;

 

traços bem desenhados, angulosos, boa

estrutura óssea -;

…………………..se tirasse a maquiagem

bem na sua frente e ficasse esfregando creme

pela pele, continuaria sendo

bela –

………ainda mais bela.

 

E ele, –

…………………Não conseguia me lembrar de quando vira

homem tão atraente. Não sabia por quê. Ele era quase

 

uma versão masculina

…………………………….dela, –

 

Tive a súbita, louca ideia

de me tornar sua amante …

 

– Eram casados?

…………………..eram amantes?

 

Não usavam alianças.

 

Portavam-se de forma circunspecta. Discutiam

política. Não se tocavam…

 

– Como poderia descobrir?

 

…………………………….Então, quando chegou

a entrada, reparei em como

 

cada um espichava o garfo para que o outro

 

pudesse provar o que tinha pedido…

 

 

…………………………………..Fizeram isso

seguidamente, com olhares satisfeitos, sorrisos

indulgentes, a cada prato,

………………………….mais de uma vez a cada prato-;

demais para meros amigos…

 

– O comportamento deles me deixou nauseada;

 

a maneira alegre como

cada um colocava a comida que o outro oferecera dentro da própria boca –;

 

Compreendi o que eles eram. Compreendi que dormiam juntos.

 

Uma imensa depressão me tomou de assalto…

 

– Eu sabia que jamais conseguiria

com tamanha facilidade permitir que outra pessoa pusesse comida na minha boca:

 

e com felicidade colocar eu própria comida na boca de um outro-;

 

sabia que para me tornar uma esposa teria de abdicar do meu ideal.

 

 

 

Mesmo quando era pequena,

vi que o processo “natural” do envelhecimento

 

consiste em nosso tronco engrossar-

em nossa pele cobrir-se de manchas;

 

como aconteceu com minha mãe.

E com a mãe dela.

……………………….Eu abominava a “Natureza”.

 

Aos doze anos, panquecas tornaram-se

o mais terrível pensamento do mundo…

 

Derrotarei a “Natureza”.

 

No hospital, quando

me pesam, levo pesos costurados secretamente a meu cinto.

 

 

 

16 de Janeiro. Permitiu-se à paciente fazer as refeições no próprio quarto, mas ela se apresenta prontamente, junto a seu marido, para o café da tarde. Anteriormente ela havia objetado a prática com firmeza, alegando que não comia, apenas devorava como um animal selvagem. Isto, ela demonstrou com o máximo realismo… Seus exames não evidenciaram nada de preocupante. As glândulas salivares apresentam notável inchaço em ambos os lados.

21 de Janeiro. Tem lido o “Fausto” novamente. Em seu diário, escreve que a arte é a “permeabilidade mútua” entre o “mundo do corpo” e o “mundo do espírito”. Diz que seus próprios poemas são “poemas de hospital – fracos – desprovidos de engenho ou perseverança; logrando apenas um suave bater de asas”.

8 de Fevereiro. Agitação, rapidamente sob controle. Vinculou-se a uma paciente muito magra e elegante. Componente homoerótico notavelmente evidente.

15 de Fevereiro. Vexação, tormento. Diz que sua mente a obriga a pensar constantemente em comer. Sente-se humilhada por isso. Parou completamente, pela primeira vez em dez anos, de escrever poemas.

 

A Callas é minha cantora favorita, mas eu só a vi

uma vez-;

 

Nunca esqueci aquela noite…

 

– Foi em Tosca, de há muito ela já havia

perdido peso, sua vez

estivera se deteriorando

……………………………….por anos, a metade do que era…

 

Quando sua carreira começou, naturalmente, ela era gorda,

 

enorme-; nas fotografias de juventude,

por vezes quase não a reconheço…

 

 

Também a voz era enorme –

saudável; robusta; sutil; mas capaz de

efeitos rasteiros, até mesmo vulgares,

………………………………………quase que provindos

de incontida alegria, de uma demasia de saúde…

 

Mas logo ela sentiu que precisava perder peso,-

que tudo que estava tentando expressar

 

era obliterado por seu corpo,

soterrado pela carne -;

………………………..abruptamente, dentro

de quatro meses, ela perdeu quase trinta quilos…

 

– Em Milão, correu à boca pequena que Callas

tinha engolido uma solitária.

 

Mas é claro que ela não tinha feito isso.

 

…………………………………………………A solitária

era a alma dela…

 

– E como esta alma, intransigente,

insaciável,

………………deve ter amado comer a carne à volta de seus ossos,

 

dando a ver esta criatura

frágil; soberba; extraordinariamente mercurial…

 

-Irresistivelmente, no entanto, nada

parou ali; a imensa voz

 

começou também a mudar: a princípio, simplesmente

diminuiu de volume, de porte,

……………………….depois as notas mais agudas tornaram-se

estridentes, duvidosas – por fim,

tornou-se comum se ausentarem de todo…

 

-Ninguém sabe o por quê. Talvez sua mente,

esfaimada, ainda insaciável, tenha sentido

 

que batalhar com os farrapos de uma voz

 

tornaria mais sutil a sua arte, mais refinada,

mais capaz de exprimir humilhação,

raiva, atraiçoamento…

 

– Talvez o contrário. Talvez seu espírito

abominasse a luta infinita

 

para incorporar a si mesmo, manifestar a si mesmo, em um palco cuja

 

mecânica, cujos sufocantes costumes

pareciam expressamente designados à aniquilação do espírito…

 

-Sei que na Tosca, no segundo ato,

quando, humilhada, atormentada por Scarpia,

ela cantou Vissi d’arte

………………………..– “Vivi pela arte” –

 

e, atormentada e atônita, ela pergunta ao fim

com uma voz tentando

…………………………….a custo alcançar as notas,

 

“A arte recompensou-me ASSIM?”

 

…………………………………..Senti como se estivesse assistindo

a uma autobiografia –

……………………………..uma arte; engenho;

virtuosismo

 

a milhas de distância do atletismo de uma soprano

qualquer,-

………………….o sonho comum do músico

de um virtuosismo sem conteúdo…

– Me pergunto como ela deve se sentir agora

ouvindo suas próprias gravações.

 

Pois já começaram, passados poucos anos,

a parecer defasadas…

 

O que quer que seja que exprimam

fazem-no por intermédio de um estilo ultrapassado

em década e meia-;

………………………..estilo que ela ajudou a criar…

 

– Ela deve saber que agora

não trinaria exatamente daquela

maneira,-

……………………que todo o som, atmosfera,

dramaturgia de suas gravações

 

tornaram-se vagamente coisas do passado…

 

– Será amargo? Será que sua alma

lhe diz

 

que ela fora uma idiota por pensar

que qualquer coisa

……………………material poderia satisfazer plenamente?…

 

– Talvez ela diga: A única maneira

de escapar

à História dos Estilos

 

é não ter um corpo.

 

 

 

Quando abro meus olhos pela manhã, meu grande

mistério

…………..está postado logo adiante…

 

Sei que sou inteligente; portanto

 

a incapacidade de não temer a comida

dia e noite; esta fome infinita

dez minutos depois de comer…

…………………………………………um medo

infantil de comer; fome que não pode ter uma causa,-

 

metade da minha mente diz que isto tudo

é degradante…

 

…………………….Pão

por dias a fio

escorraça do meu cérebro todo pensamento real…

 

– Então eu penso, Não. O ideal de ser magra

 

encobre o ideal

de não ter um corpo -;

……………………………..o que NÃO é trivial…

 

Este desejo parece agora tanto um “dado incontornável” da minha existência

 

quanto o intolerável

fato de que tenho a pele morena e ossos largos;

e que cheguei a pesar

84 quilos…

 

– Mas então eu penso, Não. Isso é simples demais,-

 

sem um corpo, quem poderá jamais

conhecer a si próprio?

………………………………….Apenas mediante

a ação; a escolha; a rejeição; foi que

me construí –

…………………………………descobri quem e o que Ellen pode ser…

 

– E novamente penso, NÃO. Este eu é anterior

a nome; gênero; ação;

moda;

……………….À PRÓPRIA MATÉRIA, —

 

… tentar saciar a minha fome com COMIDA

é como tentar matar a sede

………………………………………..com tinta.

 

 

 

30 de Março. Resultado da consulta: ambos os cavalheiros concordam completamente com meu prognóstico e duvidam que uma internação possa ser útil do ponto de vista terapêutico ainda mais enfaticamente que eu. Todos os três estamos concordes em não se tratar de um caso de neurose obsessiva nem tampouco de psicose maníaco-depressiva, e que nenhuma terapia definitivamente confiável é possível. Resolvemos, portanto, acatar o pedido de dispensa da paciente.

 

 

 

A viagem de trem ontem

foi muito pior do que eu esperava…

 

……………………………………………………..No nosso compartimento

achavam-se pessoas comuns; um estudante;

uma moça; seu filho; —

 

tinham corpos comuns, rostos agradáveis;

……………………………………………..mas eu pensei

que estava cercada por criaturas

 

tomadas de um desejo patético,

desesperado, de não ser o que eram:-

 

o estudante era baixo

e alongava o corpo como se o estivesse forçando

a ser mais alto -;

 

a mulher mostrava muito as gengivas ao sorrir,

e com frequência erguia a mão

para escondê-las-;

 

a criança

parecia chorar apenas por ser

pequena; um anão, desamparado…

 

– Eu estava com fome. Havia insistido para que meu marido

não trouxesse comida…

 

Depois de mais ou menos trinta minutos, a mulher

descascou uma laranja

 

para serenar a criança. Ela colocou um bocado

dentro de sua boca-;

…………………………..imediatamente a criança cuspiu.

 

O pedaço caiu no chão.

 

– Ela o empurrou com o pé, através da poeira,

na minha direção,

muitos centímetros.

 

Meu marido me viu fitando

o pedaço de laranja…

 

– Não me movi; como eu queria

me lançar sobre ele, e

………………………………como se fosse invisível

 

metê-lo na boca -;

 

meu corpo

enrijeceu. Enquanto o mirava,

pude vê-lo mirando

 

 

a mim, –

…….de seguida olhou para o estudante -; para a mulher -; depois

de volta para mim…

 

Não me movi.

 

– Por fim, ele se agachou e

casualmente

……………….jogou o pedaço pela janela.

 

Ele desviou o olhar

 

– Levantei-me para sair do compartimento, então

vi o rosto dele,-

 

seus olhos

estavam vermelhos;

…………………………….e eu vi

 

estou convicta de que vi

 

decepção.

 

No terceiro dia de sua volta para casa ela se mostra como que transformada. No desjejum, come manteiga e açúcar, ao meio-dia come tanto que – pela primeira vez em treze anos – ela está satisfeita e, de fato, empanturrada. No café da tarde, ela come bombas de chocolate e ovos de Páscoa. Ela dá um passeio com o marido, lê poemas, escuta discos, encontra-se num estado positivamente festivo, e todo o peso parece tê-la abandonado. Ela escreve cartas, sendo a última dirigida àquela paciente daqui com quem formara tão grande vínculo. À noite, ela ingere uma dose letal de veneno e na manhã seguinte está morta. “Tinha um aspecto como nunca tivera em vida – calma, feliz, apaziguada”.

 

Meu bem. – Lembro-me como

com dezoito anos,

…………………………….em caminhadas com amigos, quando

eles descansavam, sentando-se para conversar ou contar piadas,

 

eu andava à volta

deles, com medo de prosseguir sozinha,

 

e no entanto receosa de descansar

sem ainda ter me tornado verdadeiramente magra.

 

Você e, sim, meu marido,-

você e ele

 

conseguiram aos poucos me inserir no círculo;

me forçaram a sentar enfim no chão.

 

Sou-lhes grata.

 

Mas algo em mim o recusa.

 

– Como desejei

transigir, matar isto que recusa,-

 

mas cada transigência, cada tentativa

de envenenar um ideal

o qual frequentemente parecera a mim mesma irreal e estéril,

 

aumenta minha fome.

 

Sou uma aleijada. Decepciono vocês.

 

Como – com raiva ou

felicidade – receberá você

 

a notícia que pode bem lhe

chegar antes desta carta?

 

……………………………………………………Tua Ellen

 

Nota: Este poema se baseia em “Der Fall Ellen West”, de Ludwig Binswanger, traduzido por Werner M. Mendel e Joseph Lyons (“Existence”, Basic Books, 1958). É Binswanger quem nomeia a paciente “Ellen West”.

 

Tradução de Ismar Tirelli Neto

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“Desejos”, Grace Paley

“Eu queria escrever sobre mulheres e crianças,” afirma Grace Paley em entrevista a Paris Review, “mas posterguei por alguns anos porque pensei, As pessoas vão achar isso trivial, nada. Depois pensei, É o que eu tenho que escrever. É o que eu quero ler. E não vejo muito disso por aí.”

O ímpeto de escrever politicamente sobre a vida doméstica, explicitando-lhe dimensões e nuanças até então pouco representadas na ficção norte-americana, perpassa quase toda a obra de Paley, escritora e ativista política nascida em 1922 e falecida em 2007. Conhecida sobretudo pelos três volumes de contos que lançou em vida – The Little Disturbances of Men, Enormous Changes at the Last Minute e Later the Same Day -, a autora também escreveu poemas e lecionou ao longo de décadas, além de ter militado ativamente na causa pacifista e na causa feminista.

No Brasil, foi traduzida apenas uma vez (“Nas Próximas Horas [Later the Same Day]”, Ed. Paz Terra). Em Portugal, a Relógio D’Água publica em 1987 “Pequenas Contrariedades da Existência”, tradução de seu volume de estreia, The Little Disturbances of Man.

O conto abaixo, “Wants”, abre seu segundo apanhado de contos.

*

DESEJOS

Vi meu ex-marido na rua. Eu estava sentada na escada da biblioteca nova.

Olá, minha vida, eu disse. Fôramos casados por vinte e sete anos em algum momento, portanto me senti justificada.

Ele disse, Quê? Que vida? Vida minha que não é.

Eu disse, Certo. Não discuto quando há real desacordo. Levantei e entrei na Biblioteca para ver quanto eu lhes devia.

A bibliotecária disse $ 32 certinho e você nos deve há dezoito anos. Não neguei coisa alguma. Porque eu não entendo como o tempo passa. Os livros estiveram mesmo comigo. Frequentemente pensei neles. A biblioteca fica só a dois quarteirões de distância.

Meu ex-marido me acompanhou até o balcão de Devolução. Ele interrompeu a bibliotecária, que tinha mais a dizer. De várias maneiras, disse ele, quando olho para trás, atribuo a dissolução de nosso casamento ao fato de você nunca ter convidado os Bertram para jantar.

É possível, eu disse. Mas, convenhamos, se você se recorda: em primeiro lugar, meu pai estava adoentado naquela sexta-feira, depois nasceram as crianças, depois eu tive aquelas reuniões nas noites de terça, depois estourou a guerra. Depois era como se já não os conhecêssemos. Mas você tem razão. Eu devia tê-los convidado para jantar.

Dei à bibliotecária um cheque no valor de 32 dólares. Imediatamente ela me teve confiança, esqueceu meu passado, limpou a ficha, exatamente o que outras burocracias municipais e/ou estatais se recusam a fazer.

Tomei de empréstimo os dois livros de Edith Wharton que eu acabara de devolver porque fazia muito que não os lia, e pareciam agora mais apropriados que nunca. Eram eles The House of Mirth e The Children, que é sobre como a vida nos Estados Unidos, em Nova York, mudou ao longo de vinte e sete anos cinquenta anos atrás.

Uma coisa boa que eu me lembro é o café da manhã, disse meu ex-marido. Fiquei surpresa. Nós só bebíamos café. Depois me lembrei que havia um buraco no fundo do armário da cozinha que dava para o apartamento vizinho. Lá, eles sempre comiam bacon defumado curado no açúcar. Isto nos dava uma impressão grandiosa do café da manhã, mas nunca ficávamos empanturrados e moles.

Isto quando nós éramos pobres, eu disse.

Quando foi que fomos ricos?, perguntou ele.

Ah, à medida que o tempo foi passando, que nossas responsabilidades aumentaram, nós não passamos necessidade. Você de fato tomou as devidas precauções financeiras, lembrei-lhe. As crianças iam para o acampamento quatro vezes por ano e metidas em ponchos decentes, com sacos de dormir e botas, como todos os outros. Tinham muito bom aspecto. Nossa casa era quente no inverno, e tínhamos bonitos travesseiros vermelhos e coisas.

Eu queria um veleiro, disse ele. Mas você não queria nada.

Não seja amargo, eu disse. Nunca é tarde.

Não, disse ele com muita amargura. Talvez eu compre um veleiro. Na verdade, acabo de dar entrada numa chalupa de dezoito pés. Estou folgado este ano e posso esperar coisa ainda melhor. Mas para você, é tarde demais. Você sempre não vai querer nada.

Ao longo dos vinte e sete anos ele tivera esse hábito de fazer um comentário mesquinho que, feito cabo de desentupimento, tinha a capacidade de ir descendo pela orelha, garganta abaixo, até atingir bem o meio do meu coração. Depois ele desaparecia, me deixando engasgada de equipamento. O que quero dizer é que me sentei na escada da Biblioteca e ele foi embora.

Folheei The House of Mirth, mas perdi o interesse. Senti-me extremamente acusada. Bem, é verdade, sou falta de demandas e requerimentos absolutos. Mas eu quero sim algo.

Quero, por exemplo, ser outra pessoa. Quero ser a mulher que devolve estes dois livros em duas semanas. Quero ser a cidadã eficaz que modifica o sistema educacional e se pronuncia junto ao Comitê Orçamentário acerca dos problemas deste querido centro urbano.

Eu havia prometido a meus filhos que acabaria com a guerra antes que eles crescessem.

Eu queria ter ficado casada para sempre com uma pessoa só, meu ex-marido ou meu atual. Ambos têm personalidade o suficiente para uma vida inteira, tempo que, feitas as contas, não é lá tão longo. Em uma só breve vida não se poderia exaurir as qualidades de nenhum dos dois, nem tampouco se embrenhar por debaixo da rocha de suas razões.

Hoje mesmo, pela manhã, fui à janela para olhar um pouco a rua e vi que os pequenos plátanos que a cidade plantara sonhadora pouco antes de nascerem as crianças haviam atingido, naquele dia, a flor da idade.

Pois bem! Decidi devolver aqueles dois livros na Biblioteca. O que prova que quando uma pessoa ou acontecimento surge para me chocar ou testar eu posso tomar as devidas atitudes, muito embora seja mais conhecida por meus comentários amistosos.

Tradução: Ismar Tirelli Neto

Revisão: Tassia Kleine

*

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Russell Edson

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Lemos em alguma parte que Russell Edson costumava referir-se a si próprio como O Pequeno Senhor Poema em Prosa. Tendo explorado as possibilidades do formato por quase toda sua carreira literária, Edson é tido por grande parte da crítica especializada como o grande consolidador deste tipo de escrita nas letras americanas. “Antes de tornar-se moda”, lemos também em alguma parte. E também, cabe ressaltar, depois do Sr. Plume de Henri Michaux, cujas desventuras vieram a público originalmente em fins dos anos 1930; depois também de Gertrude Stein atentar contra a bem estância do público leitor de então com seu Tender Buttons, volume em que jarras, xícaras e demais utensílios são a todo tempo “tornados” inúteis por um sistema de escrita que lhes recusa função e sentido no plano mesmo da linguagem.

Reconhecemos nos personagens e nas situações imaginadas por Edson – nascido em Connecticut e filho de pai cartunista – tanto a aguerrida patetice de Plume quanto a perturbadora iminência de inutilidade que perpassa os textos de Tender Buttons, mas com algumas diferenças. Há mais ternura desafetada nos construtos de Edson; as figuras, humanas ou não, de que lança mão em suas composições raramente nos chegam nomeadas, particularizadas, ainda assim destacando-se nos textos como cores primárias em meio a um quadro cinzento, feito ele próprio das indistinções do mundo à nossa volta. Não há, porém, um Plume para centralizar a perplexidade diante de um mundo absurdo, e o tal absurdo não é textualizado com a opacidade estudada de um Tender Buttons. A recusa do extraordinário na dicção de Edson – “um homem”, “uma mulher”, “uma mãe”, “um filho”, “uma casa”, “um macaco” – envia-nos ora à fábula, ora ao causo, mas sobretudo à falência de ambos os modos. Este mau funcionamento do texto – que, por se apresentar como fábula, desejamos claro em sua instrução moral; e por se apresentar como causo, desejamos divertido de forma leve e sem muita ressonância –, porém, não só não frustra o leitor, como sugere que há muitas maneiras de habitar o desarrazoado do mundo em que vivemos.

Os poemas abaixo foram traduzidos a partir do volume The Tunnel: Selected Poems, publicado em 1994, dez anos antes de seu falecimento.

*

Amor

Cão, me ame, disse um homem a um cão. Um cão não disse nada.
Contudo um caco de vidro quando acertadamente com o sol brilhou para dentro de seu olho – eu te ouço, disse o homem.
Contudo uma folha retorcendo-se em seu caule pois o vento queria ir a alguma parte fez o homem tornar a si – Quer dizer que está dizendo tal e coisa, disse.
Ele reparou nas rugas em seu sapato – Estiramento muscular que é o que é um sorriso; meu sapato está sorrindo para mim. Sapato, te amo, me ame. Contudo o sapato limitou-se a caminhar, sua cabeça pairando acima…
Cabeça, cabeça, me ame, ele disse à sua cabeça.
Sua cabeça tinha uma narina. Ele a sentia. Havia duas. Uma narina devia ter tido nenê.
Contudo sua narina soprava ar nos seus dedos.
Também posso soprar ar numa narina. Então ele entortou os lábios e soprou ar em suas narinas.

Love

Dog, love me, said a man to a dog. A dog said nothing.
But a piece of glass when properly with the sun glittered into his eye — I hear you, said the man.
But a leaf wristing on its stem because the wind wanted to go someplace, turned the man to itself — So you are saying such and such, he said.
He noticed wrinkles on his shoe — Muscle stretch which is what a smile is; my shoe is smiling at me. Shoe, I love you, love me. But his shoe merely walked on, his head hovering above it . . .
Head, head, love me, he said to his head.
His head had a nostril. He felt it. There were two. One nostril must have had a baby.
But his nostril blew air at his fingers.
I can blow air at a nostril too. So he screwed up his lips and blew air at his nostrils.

*

Um bigode vermelho

Uma mulher corpulenta com um pau de macarrão disse, eu sou o rei.
Uma mosca pousou em seu nariz. Ela acertou a mosca em seu nariz com seu pau de macarrão. Não perturbe Sua Alteza com trivialidades, disse, enquanto o sangue de seu nariz formava um bigode vermelho.
Querida, disse seu esposo, você está com um bigode vermelho.
A mulher que é rei recuou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho.
A mulher que é rei avançou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho e disse, querida, que bigode vermelho é esse?
Sou rei de todas as coisas, ela disse, sou rei Mamãe.
E o pau de macarrão, meu bem?, ele disse.
É o cetro da brutalidade, ela disse.
E o avental e o cabelo em seu pequeno e engordurado coque? disse ele.
Que é a fortaleza e a imagem que o povo virá a temer, ela disse.
E o bigode vermelho, tão fora de esquadro numa gorda dona de casa de meia-idade? ele disse.
O bigode vermelho ao qual você constantemente se refere é o brasão do mandato, a troca de gênero, o golpe autoinfligido, a pelugem secundária de minha virilidade, o fim de minha menopausa, o retorno à donzelice, o mênstruo cerebral escorrendo pelo nariz em vez das partes baixas…, ela disse.
Mas e o bigode vermelho? ele disse.
Se faz mesmo questão de saber, matei uma mosca no meu nariz com um pau de macarrão, ela disse.
Matou não, ela está voando ali pelo teto, ele disse.
Veja só, está na sua cabeça, ela disse.
Alto lá, ele gritou.
Tenho que matá-la, ela disse.
Não, não faça isso, ele gritou.
Vai pousar no meu nariz, ela disse.
Ó por favor limpe o sangue do rosto e vá tratar da janta, ele gritou.
Ó ó ó, berrou ela, não sei o que fazer. Ó ó ó…
Lave o rosto, ele disse.
Não, isto não é coisa que se faça, ó ó ó, berrou ela.
Bem o que é que é isso de repente de bigode vermelho? ele disse.
Ó quero ser amada mais que todo o restante, ó ó ó…. ela berrou.

A Red Mustache

A heavy woman with a rolling pin said, I am the king.
A fly lighted on her nose. She hit the fly on her nose with her rolling pin. Do not disturb her highness with trivialities, she said, as the blood from her nose formed a red mustache.
Darling, said her husband, you have a red mustache.
The woman who is king backed up.
Her husband watched her red mustache.
The woman who is king came forward.
Her husband watched her red mustache and said, darling, what’s with the red mustache?
I am king of everything, she said, I am king Mama.
And the rolling pin, dearest? he said.
Is the scepter of brutality, she said.
And the apron and the hair in its greasy little bun? he said.
Which is the fortress and the image that people shall come to fear, she said.
And the red mustache, so outlandish on a fat middle-aged hausfrau? He said.
The red mustache which you constantly refer to is the sign of office, the change of gender, the self inflicted blow, the secondary hair of my manhood, the end of my menopause, the return to maidenhood, the cerebral menses from my nose instead of my under part . . . , she said.
But what about the red mustache? he said.
If you really must know I killed a fly on my nose with a rolling pin, she said.
No you didn’t, he’s flying around on the ceiling, he said.
Oh look, he’s on your head, she said.
Hold it, he screamed.
I must kill it, she said.
No, don’t, he screamed.
It’ll get on my nose, she said.
Oh please clean the blood off your face and cook dinner, he screamed.
Oh oh oh, she cried, I do not know what to do. Oh oh oh . . .
Wash your face, he said.
No, that is not a thing to do, oh oh oh, she cried.
Well what is it, suddenly, with that red mustache? he said.
Oh I want to be loved more than all things else, oh oh oh . . . , she cried.

*

Aparição

Havia por vezes uma paisagem onde uma rocha uma pessoa e uma pedrinha e será que vai chover algum dia se juntaram certo dia para aparecer.
Havia uma paisagem que tornou-se um quarto para buscar uma casa, para lá resolver ficar, depois envelhecer na casa que encontrar.
Então o sol entrou pela janela de um quarto e despertou uma pessoa que pôs o café dentro de uma xícara dentro de sua cabeça.

Appearance

There was a landscape once in a while where a rock a person and a pebble and will it rain one day, gathered one day to appear.
There was a landscape that became a room to search for a house, to decide to stay there, then to be old in a house it finds.
And so the sun came in a room’s window and woke a person who poured coffee out of a cup into his head.

*

Ser de alguma utilidade

Se a cabeça pudesse ser transformada numa espécie de galpão para animais seria possível fazer um bom dinheiro, pequenos animais de que pudéssemos lucrar os ovos ou a pelagem, fazendo-se necessário portanto partir e tratar então de certos negócios.

Havia certa pedra que no meio de um bosque foi muito exitosa, mas isto não é para mim.
Menino, quisera me tornar um automóvel, mas cresci e me tornei um homem de trinta anos.

Executar trabalhos úteis como erguer a mão ar adentro e beliscar a parte de baixo de uma nuvem.

O caminhar sobre os quadrados negros do linóleo da cozinha da mãe poderia ser revertido em lucro, digamos, prendendo-se um barbante ao ouvido de um indivíduo o qual poderia estar ligado numa cidade longínqua à boca de um boneco, ou através do Oceano Atlântico a um moinho holandês em dia de pouco vento.
Ou um bocejo poderia ser utilizado como prelúdio ao sono.

Disse à mãe que a cabeça poderia ser usada para abrigar peixes tropicais, e disso se poderia cavar uma renda modesta – um por assim dizer negócio por correspondência, remeter-se a si próprio num caixão – poupando gastos com contadores retendo-se, por assim dizer, o negócio na própria cabeça.
A mãe me deu um tapa na boca, coisa de difícil interpretação.

Para não me sentir muito inútil hoje em dia mantenho-me ocupado fumando cigarros e bebendo café. Não me oponho a gastar meu tempo dormindo contanto que esteja fazendo algo útil com meu tempo.

Tivesse eu mais braços e pernas consideraria seriamente me tornar a armação de um guarda-chuva – com alguma excitação sexual meu pênis poderia fazer as vezes de cabo – já não é ele usado para ajudar velhas senhoras a subir e descer escadas.

Por vezes apenas respiro. Já fez isso, pergunto. Digo à mãe, veja estou respirando.
Obtenho pouco reconhecimento – ou então minha mãe é parcimoniosa com seus elogios apenas para que eu não me acomode sobre os louros – que eu mantenha um olhar firme e constante à escuridão que os outros optam por chamar de futuro.

Busco uma terra onde eu possa ser de alguma utilidade – ou, posto melhor, que minha utilidade possa obter algum reconhecimento – que, em outras palavras, a mãe possa eventualmente escrever ao deputado de sua predileção acerca de meu valor – e que os jornais possam encher-se de matérias ilustradas intituladas: Ele Fuma Um Cigarro – Ele Consegue Respirar – Etc. E que multidões se postem do lado de fora da casa, dando vivas enquanto durmo.

Talvez me desse sorte beijar o rosto do relógio da cozinha. Talvez suas mãozinhas me envolvessem extáticas o pescoço, e seríamos então felizes.

Estou certo de que a felicidade não está muito longe.

To Be of Some Use

If the head could be converted into a sort of shack for animals one might turn a pretty penny, small animals that profit one their eggs and fur, as one must leave and so make certain business arrangements.

There was a certain stone that did very well in the middle of a wood, but then that is not for me.
As a child I had wanted to become an automobile, but then I grew up to be 30 years old.

To do useful work like lifting one’s hand into the air and pinching the underside of a cloud.

The walking of the black squares on the linoleum in mother’s kitchen might be turned to profit, say by hooking a string to one’s ear which could be attached in a distant city to a dummy’s mouth, or across the Atlantic to a Dutch windmill on a day when there is little wind.
Or a yawn might be used as a prelude to sleep.

I said to mother the head might be used to keep tropical fish in, and one might carve out a small income — a mailorder business so to speak, mailing oneself in a coffin — saving the costs of a book-keeper by, so to speak, having the business in one’s head.
Mother slapped me across my mouth, which one is hard put to interpret.

Not to feel too useless these days I keep myself busy smoking cigarettes and drinking coffee. I am not against spending my time sleeping just as long as I am doing something with my time.

Had I more arms and legs I would seriously consider becoming the frame for an umbrella — with some sexual arousement my penis could be used as the handle — Is it not already used to help old ladies up and down stairs.

Sometimes I just breathe. Did you ever do that. I say to mother, look I am breathing. I get little recognition — or mother is scanty with praise only that I might not rest on my laurels — that I will keep a firm and steady gaze into the darkness that others choose to call the future.

I seek a land where I might become of some use — or rather my use might come to some recognition — that in other words, mother might come eventually to write her congressman of my worth — and that the daily papers might be filled with picture stories, titled: He Smokes A Cigarette — He Can Breathe — Etc. And that crowds might stand outside the house cheering me as I sleep.

Perhaps I should kiss the face of the kitchen clock for luck. Perhaps its little hands with rapture would encircle my neck, and we might be happy.

I am sure happiness is not too far away.

*

O Épico

Eles perderam o bebê no esgoto. Pode ser que corram até o mar, onde o esgoto é esvaziado. Ou pode ser que fiquem esperando lá onde o perderam; quiçá volte do futuro, tendo encontrado sob a cidade a sua idade viril.
Decerto correm o risco de o bebê se ter tornado lixo, uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Ela não está certa de que poderia amar uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Não tem problema, meu bem, porque tudo sucede sob o sorriso de Deus.
Mas por que, em nome de Deus, Ele está sorrindo?
Porque Ele sabe o final.
Mas não estamos ainda caminhando para lá?
Sim; mas Ele já viu diversas vezes.
Viu o que diversas vezes?
Esse filme, que Ele produziu e dirigiu. No qual Ele estrelou… Sabe, aquele em que Ele desempenha todos os papéis num elenco de bilhões… a história de um marido e mulher que perdem seu bebê no esgoto…
Ah, esse filme; chorei do início ao fim.

The Epic

They have lost their baby down a sewer. They might run to the sea where the sewer empties. Or they might wait where they have lost him; perhaps he returns out of the future, having found his manhood under the city.
Surely they risk his having turned to garbage, an orange peel with a bag of chicken guts.
She is not sure she could love an orange peel with a bag of chicken guts.
It’s okay, honey, because everything happens under the smile of God.
But why, in heaven’s name, is He smiling?
Because He knows the end.
But aren’t we still getting there?
Yes; but He’s seen it several times.
Seen what several times?
This movie, the one He produced and directed. The one He starred in
. . . You know, the one where He plays all the parts in a cast of billions
The story of a husband and wife losing their baby down a sewer . . .
Oh that movie; I cried through the whole thing.

*

O Reino

… Curioso, meu relógio está derretendo no meu pulso.
Será que é doloroso?
Tenho vivido em minha mente.

Lá pelas províncias de minhas extremidades, onde todo acontecimento parece central, um simples populacho de dedos, por hábitos jungido, começa a deparar provas de que a natureza está, afinal, mudando de ideia.

Lá pela província de meu pulso esquerdo, meu relógio está derretendo – mãos esticadas, crispam-se de volta para o seu seio de números no repentino calor. A súplica de um velho.
Tempo, o trazedor, por fim a tudo arruína.

Tenho vivido em minha mente. A dor cavalga para dentro. Já não me importo; o rei está doente de dúvida.

The Kingdom

. . . That’s funny, my watch is melting on my wrist.
I wonder if it’s painful?
I have been living in my mind.

Out in the provinces of my extremities, where any event seems central, a simple folk of fingers, yoked in habits, are beginning to find evidence that nature is at last changing its mind.

Out in the province of my left wrist, my watch is melting — hands reaching out, curl back to their breast of numbers in the sudden heat. An old man’s supplication.
Time the bringer, finally ruins everything.

I have been living in my mind. Pain rides in. I no longer care; the king is sick with doubt.

*

Como estão indo as coisas

para Michael Cuddihy

Um homem registra alguns pombos num hotel. Eles voam para seus quartos. Não está certo de que sua mente não voe com eles…
Ele pergunta ao recepcionista se tudo parece direito. Gostaria de saber se a fumaça saindo de seu cigarro é real, ou não será algo que a gerência do hotel mandou pintar na parede?
O recepcionista deu-lhe as costas e está separando a correspondência.
Senhor…, diz o homem.
Mas o recepcionista continua organizando a correspondência.
Senhor, poderia olhar nesta direção um instante?
Posso ouvi-lo, estou só separando a correspondência.
Gostaria que reparasse na fumaça do meu cigarro… Já que os pombos voaram para os seus quartos… O futuro, nunca se sabe, quer dizer, em que pé as coisas vão ficar… Por gentileza, poderia verificar minha fumaça…?
Quando o recepcionista se volta o seu rosto está coberto de cabelo, como a parte de trás de sua cabeça; e a frente de seu corpo é como a parte de trás de seu corpo.
Onde está sua frente?
Meu irmão gêmeo tem as frentes; eu nasci com duas costas… era sempre eu quem levava as surras… mas por que amargar o passado?
É uma boa filosofia.
Minha melhor disciplina.
… Diga-me, as coisas estão se endireitando?
Até agora, tudo bem…

How Things Are Turning Out
for Michael Cuddihy

A man registers some pigeons at a hotel. They fly up to their rooms. He’s not sure that his mind doesn’t fly with them . . .
He asks the desk clerk if everything seems all right. He would like to know if the smoke coming out of his cigarette is real, or something the management has had painted on the wall?
The desk clerk has turned his back and is sorting the mail.
Sir . . . , says the man.
But the desk clerk continues to arrange the mail.
Sir, would you look this way for a moment?
I can hear you, I’m just sorting the mail.
I wanted you to notice the smoke of my cigarette . . . Since the pigeons flew up to their rooms . . . You never know about the future, I mean how things will finally turn out . . . Please, could you check my smoke . . . ?
When the desk clerk turns his face is covered with hair, like the back of his head; and the front of his body is like the back of his body.
Where is your front?
My twin brother has the fronts; I was born with two backs . . . I always got the spankings . . . But why regret the past?
That’s good philosophy . . .
My best subject.
. . . Tell me, is everything turning out all right?
So far so good . . .

 

Traduções de Ismar Tirelli Neto

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