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‘Ellen West”, Frank Bidart

 

 

Frank Bidart é um poeta americano nascido a 1939. Celebrado por uma obra poética que se vem construindo desde meados da década de 1970, Bidart ganha reconhecimento nos meios literários por textos como Ellen West – denso poema narrativo no qual o monólogo de uma mulher que sofre de anorexia é seguidamente jugulado por pareceres médicos. Os registros atritantes, a disposição fragmentária e a temática devastadora do texto – aliados a uma certa frieza verificável tanto no tom quanto na própria disposição progressiva, aparentemente imparável dos cacos de texto rumo a um desfecho aterrador – fazem de Ellen West uma experiência de assombrosa densidade emocional.

De Bidart, não conhecemos nenhuma tradução para o português. A íntegra do poema – publicado originalmente no segundo livro do autor, The Book of the Body – pode ser acessada aqui.

 

Ellen West

 

“Amo doces, –

……………. paraíso

seria morrer num leito de sorvete de baunilha…

 

Mas meu verdadeiro eu

é magro, todo perfil

 

e gestos gráceis, o tipo da menina

loura elegante cujo

……………………….corpo é a imagem da própria alma.

 

– Meus médicos dizem que preciso desistir

deste ideal;

………………..mas eu

NÃO VOU … não posso.

 

Apenas para meu marido não sou meramente um “caso”.

 

Mas ele é um tolo. Desposou

carne tomando-a por esposa.

 

 

 

Por que sou menina?

 

Pergunto a meus médicos, e eles dizem

que não sabem, que trata-se apenas de um “dado incontornável”.

 

Mas são tantas

as implicações -;

…………………….e às vezes

chego mesmo a me sentir como uma menina.

 

 

 

Agora, no início do trigésimo segundo ano de vida de Ellen, sua condição física deteriorou-se ainda mais. Seu uso de laxantes sofre um aumento desmedido. A cada noite ela ingere de sessenta a setenta cápsulas de um determinado laxante, o que acarreta em vômitos torturantes à noite e diarreia violenta pelas manhãs, frequentemente acompanhadas de debilidade cardíaca. Ela emagreceu a ponto de tornar-se esquelética, e pesa apenas 46 quilos.

 

 

 

Há mais ou menos cinco anos eu estava num restaurante

comendo sozinha

…………………….com um livro. Eu não

era casada, e isto era costume meu…

 

– Eu recusava convites

para jantar, para poder comer sozinha;

 

Eu me permitia duas fatias de pão com

manteiga, no início, e três bolas

de sorvete de baunilha, no final, –

 

………………………………………….sentada ali sozinha

com um livro, tanto dentro como

fora do livro, atendida, observando

ociosa as pessoas,-

 

…………………………………quando um rapaz atraente

e uma mulher, ambos vestidos com elegância,

sentaram-se ao meu lado.

………………………………….Ela era linda –;

 

traços bem desenhados, angulosos, boa

estrutura óssea -;

…………………..se tirasse a maquiagem

bem na sua frente e ficasse esfregando creme

pela pele, continuaria sendo

bela –

………ainda mais bela.

 

E ele, –

…………………Não conseguia me lembrar de quando vira

homem tão atraente. Não sabia por quê. Ele era quase

 

uma versão masculina

…………………………….dela, –

 

Tive a súbita, louca ideia

de me tornar sua amante …

 

– Eram casados?

…………………..eram amantes?

 

Não usavam alianças.

 

Portavam-se de forma circunspecta. Discutiam

política. Não se tocavam…

 

– Como poderia descobrir?

 

…………………………….Então, quando chegou

a entrada, reparei em como

 

cada um espichava o garfo para que o outro

 

pudesse provar o que tinha pedido…

 

 

…………………………………..Fizeram isso

seguidamente, com olhares satisfeitos, sorrisos

indulgentes, a cada prato,

………………………….mais de uma vez a cada prato-;

demais para meros amigos…

 

– O comportamento deles me deixou nauseada;

 

a maneira alegre como

cada um colocava a comida que o outro oferecera dentro da própria boca –;

 

Compreendi o que eles eram. Compreendi que dormiam juntos.

 

Uma imensa depressão me tomou de assalto…

 

– Eu sabia que jamais conseguiria

com tamanha facilidade permitir que outra pessoa pusesse comida na minha boca:

 

e com felicidade colocar eu própria comida na boca de um outro-;

 

sabia que para me tornar uma esposa teria de abdicar do meu ideal.

 

 

 

Mesmo quando era pequena,

vi que o processo “natural” do envelhecimento

 

consiste em nosso tronco engrossar-

em nossa pele cobrir-se de manchas;

 

como aconteceu com minha mãe.

E com a mãe dela.

……………………….Eu abominava a “Natureza”.

 

Aos doze anos, panquecas tornaram-se

o mais terrível pensamento do mundo…

 

Derrotarei a “Natureza”.

 

No hospital, quando

me pesam, levo pesos costurados secretamente a meu cinto.

 

 

 

16 de Janeiro. Permitiu-se à paciente fazer as refeições no próprio quarto, mas ela se apresenta prontamente, junto a seu marido, para o café da tarde. Anteriormente ela havia objetado a prática com firmeza, alegando que não comia, apenas devorava como um animal selvagem. Isto, ela demonstrou com o máximo realismo… Seus exames não evidenciaram nada de preocupante. As glândulas salivares apresentam notável inchaço em ambos os lados.

21 de Janeiro. Tem lido o “Fausto” novamente. Em seu diário, escreve que a arte é a “permeabilidade mútua” entre o “mundo do corpo” e o “mundo do espírito”. Diz que seus próprios poemas são “poemas de hospital – fracos – desprovidos de engenho ou perseverança; logrando apenas um suave bater de asas”.

8 de Fevereiro. Agitação, rapidamente sob controle. Vinculou-se a uma paciente muito magra e elegante. Componente homoerótico notavelmente evidente.

15 de Fevereiro. Vexação, tormento. Diz que sua mente a obriga a pensar constantemente em comer. Sente-se humilhada por isso. Parou completamente, pela primeira vez em dez anos, de escrever poemas.

 

A Callas é minha cantora favorita, mas eu só a vi

uma vez-;

 

Nunca esqueci aquela noite…

 

– Foi em Tosca, de há muito ela já havia

perdido peso, sua vez

estivera se deteriorando

……………………………….por anos, a metade do que era…

 

Quando sua carreira começou, naturalmente, ela era gorda,

 

enorme-; nas fotografias de juventude,

por vezes quase não a reconheço…

 

 

Também a voz era enorme –

saudável; robusta; sutil; mas capaz de

efeitos rasteiros, até mesmo vulgares,

………………………………………quase que provindos

de incontida alegria, de uma demasia de saúde…

 

Mas logo ela sentiu que precisava perder peso,-

que tudo que estava tentando expressar

 

era obliterado por seu corpo,

soterrado pela carne -;

………………………..abruptamente, dentro

de quatro meses, ela perdeu quase trinta quilos…

 

– Em Milão, correu à boca pequena que Callas

tinha engolido uma solitária.

 

Mas é claro que ela não tinha feito isso.

 

…………………………………………………A solitária

era a alma dela…

 

– E como esta alma, intransigente,

insaciável,

………………deve ter amado comer a carne à volta de seus ossos,

 

dando a ver esta criatura

frágil; soberba; extraordinariamente mercurial…

 

-Irresistivelmente, no entanto, nada

parou ali; a imensa voz

 

começou também a mudar: a princípio, simplesmente

diminuiu de volume, de porte,

……………………….depois as notas mais agudas tornaram-se

estridentes, duvidosas – por fim,

tornou-se comum se ausentarem de todo…

 

-Ninguém sabe o por quê. Talvez sua mente,

esfaimada, ainda insaciável, tenha sentido

 

que batalhar com os farrapos de uma voz

 

tornaria mais sutil a sua arte, mais refinada,

mais capaz de exprimir humilhação,

raiva, atraiçoamento…

 

– Talvez o contrário. Talvez seu espírito

abominasse a luta infinita

 

para incorporar a si mesmo, manifestar a si mesmo, em um palco cuja

 

mecânica, cujos sufocantes costumes

pareciam expressamente designados à aniquilação do espírito…

 

-Sei que na Tosca, no segundo ato,

quando, humilhada, atormentada por Scarpia,

ela cantou Vissi d’arte

………………………..– “Vivi pela arte” –

 

e, atormentada e atônita, ela pergunta ao fim

com uma voz tentando

…………………………….a custo alcançar as notas,

 

“A arte recompensou-me ASSIM?”

 

…………………………………..Senti como se estivesse assistindo

a uma autobiografia –

……………………………..uma arte; engenho;

virtuosismo

 

a milhas de distância do atletismo de uma soprano

qualquer,-

………………….o sonho comum do músico

de um virtuosismo sem conteúdo…

– Me pergunto como ela deve se sentir agora

ouvindo suas próprias gravações.

 

Pois já começaram, passados poucos anos,

a parecer defasadas…

 

O que quer que seja que exprimam

fazem-no por intermédio de um estilo ultrapassado

em década e meia-;

………………………..estilo que ela ajudou a criar…

 

– Ela deve saber que agora

não trinaria exatamente daquela

maneira,-

……………………que todo o som, atmosfera,

dramaturgia de suas gravações

 

tornaram-se vagamente coisas do passado…

 

– Será amargo? Será que sua alma

lhe diz

 

que ela fora uma idiota por pensar

que qualquer coisa

……………………material poderia satisfazer plenamente?…

 

– Talvez ela diga: A única maneira

de escapar

à História dos Estilos

 

é não ter um corpo.

 

 

 

Quando abro meus olhos pela manhã, meu grande

mistério

…………..está postado logo adiante…

 

Sei que sou inteligente; portanto

 

a incapacidade de não temer a comida

dia e noite; esta fome infinita

dez minutos depois de comer…

…………………………………………um medo

infantil de comer; fome que não pode ter uma causa,-

 

metade da minha mente diz que isto tudo

é degradante…

 

…………………….Pão

por dias a fio

escorraça do meu cérebro todo pensamento real…

 

– Então eu penso, Não. O ideal de ser magra

 

encobre o ideal

de não ter um corpo -;

……………………………..o que NÃO é trivial…

 

Este desejo parece agora tanto um “dado incontornável” da minha existência

 

quanto o intolerável

fato de que tenho a pele morena e ossos largos;

e que cheguei a pesar

84 quilos…

 

– Mas então eu penso, Não. Isso é simples demais,-

 

sem um corpo, quem poderá jamais

conhecer a si próprio?

………………………………….Apenas mediante

a ação; a escolha; a rejeição; foi que

me construí –

…………………………………descobri quem e o que Ellen pode ser…

 

– E novamente penso, NÃO. Este eu é anterior

a nome; gênero; ação;

moda;

……………….À PRÓPRIA MATÉRIA, —

 

… tentar saciar a minha fome com COMIDA

é como tentar matar a sede

………………………………………..com tinta.

 

 

 

30 de Março. Resultado da consulta: ambos os cavalheiros concordam completamente com meu prognóstico e duvidam que uma internação possa ser útil do ponto de vista terapêutico ainda mais enfaticamente que eu. Todos os três estamos concordes em não se tratar de um caso de neurose obsessiva nem tampouco de psicose maníaco-depressiva, e que nenhuma terapia definitivamente confiável é possível. Resolvemos, portanto, acatar o pedido de dispensa da paciente.

 

 

 

A viagem de trem ontem

foi muito pior do que eu esperava…

 

……………………………………………………..No nosso compartimento

achavam-se pessoas comuns; um estudante;

uma moça; seu filho; —

 

tinham corpos comuns, rostos agradáveis;

……………………………………………..mas eu pensei

que estava cercada por criaturas

 

tomadas de um desejo patético,

desesperado, de não ser o que eram:-

 

o estudante era baixo

e alongava o corpo como se o estivesse forçando

a ser mais alto -;

 

a mulher mostrava muito as gengivas ao sorrir,

e com frequência erguia a mão

para escondê-las-;

 

a criança

parecia chorar apenas por ser

pequena; um anão, desamparado…

 

– Eu estava com fome. Havia insistido para que meu marido

não trouxesse comida…

 

Depois de mais ou menos trinta minutos, a mulher

descascou uma laranja

 

para serenar a criança. Ela colocou um bocado

dentro de sua boca-;

…………………………..imediatamente a criança cuspiu.

 

O pedaço caiu no chão.

 

– Ela o empurrou com o pé, através da poeira,

na minha direção,

muitos centímetros.

 

Meu marido me viu fitando

o pedaço de laranja…

 

– Não me movi; como eu queria

me lançar sobre ele, e

………………………………como se fosse invisível

 

metê-lo na boca -;

 

meu corpo

enrijeceu. Enquanto o mirava,

pude vê-lo mirando

 

 

a mim, –

…….de seguida olhou para o estudante -; para a mulher -; depois

de volta para mim…

 

Não me movi.

 

– Por fim, ele se agachou e

casualmente

……………….jogou o pedaço pela janela.

 

Ele desviou o olhar

 

– Levantei-me para sair do compartimento, então

vi o rosto dele,-

 

seus olhos

estavam vermelhos;

…………………………….e eu vi

 

estou convicta de que vi

 

decepção.

 

No terceiro dia de sua volta para casa ela se mostra como que transformada. No desjejum, come manteiga e açúcar, ao meio-dia come tanto que – pela primeira vez em treze anos – ela está satisfeita e, de fato, empanturrada. No café da tarde, ela come bombas de chocolate e ovos de Páscoa. Ela dá um passeio com o marido, lê poemas, escuta discos, encontra-se num estado positivamente festivo, e todo o peso parece tê-la abandonado. Ela escreve cartas, sendo a última dirigida àquela paciente daqui com quem formara tão grande vínculo. À noite, ela ingere uma dose letal de veneno e na manhã seguinte está morta. “Tinha um aspecto como nunca tivera em vida – calma, feliz, apaziguada”.

 

Meu bem. – Lembro-me como

com dezoito anos,

…………………………….em caminhadas com amigos, quando

eles descansavam, sentando-se para conversar ou contar piadas,

 

eu andava à volta

deles, com medo de prosseguir sozinha,

 

e no entanto receosa de descansar

sem ainda ter me tornado verdadeiramente magra.

 

Você e, sim, meu marido,-

você e ele

 

conseguiram aos poucos me inserir no círculo;

me forçaram a sentar enfim no chão.

 

Sou-lhes grata.

 

Mas algo em mim o recusa.

 

– Como desejei

transigir, matar isto que recusa,-

 

mas cada transigência, cada tentativa

de envenenar um ideal

o qual frequentemente parecera a mim mesma irreal e estéril,

 

aumenta minha fome.

 

Sou uma aleijada. Decepciono vocês.

 

Como – com raiva ou

felicidade – receberá você

 

a notícia que pode bem lhe

chegar antes desta carta?

 

……………………………………………………Tua Ellen

 

Nota: Este poema se baseia em “Der Fall Ellen West”, de Ludwig Binswanger, traduzido por Werner M. Mendel e Joseph Lyons (“Existence”, Basic Books, 1958). É Binswanger quem nomeia a paciente “Ellen West”.

 

Tradução de Ismar Tirelli Neto

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“Desejos”, Grace Paley

“Eu queria escrever sobre mulheres e crianças,” afirma Grace Paley em entrevista a Paris Review, “mas posterguei por alguns anos porque pensei, As pessoas vão achar isso trivial, nada. Depois pensei, É o que eu tenho que escrever. É o que eu quero ler. E não vejo muito disso por aí.”

O ímpeto de escrever politicamente sobre a vida doméstica, explicitando-lhe dimensões e nuanças até então pouco representadas na ficção norte-americana, perpassa quase toda a obra de Paley, escritora e ativista política nascida em 1922 e falecida em 2007. Conhecida sobretudo pelos três volumes de contos que lançou em vida – The Little Disturbances of Men, Enormous Changes at the Last Minute e Later the Same Day -, a autora também escreveu poemas e lecionou ao longo de décadas, além de ter militado ativamente na causa pacifista e na causa feminista.

No Brasil, foi traduzida apenas uma vez (“Nas Próximas Horas [Later the Same Day]”, Ed. Paz Terra). Em Portugal, a Relógio D’Água publica em 1987 “Pequenas Contrariedades da Existência”, tradução de seu volume de estreia, The Little Disturbances of Man.

O conto abaixo, “Wants”, abre seu segundo apanhado de contos.

*

DESEJOS

Vi meu ex-marido na rua. Eu estava sentada na escada da biblioteca nova.

Olá, minha vida, eu disse. Fôramos casados por vinte e sete anos em algum momento, portanto me senti justificada.

Ele disse, Quê? Que vida? Vida minha que não é.

Eu disse, Certo. Não discuto quando há real desacordo. Levantei e entrei na Biblioteca para ver quanto eu lhes devia.

A bibliotecária disse $ 32 certinho e você nos deve há dezoito anos. Não neguei coisa alguma. Porque eu não entendo como o tempo passa. Os livros estiveram mesmo comigo. Frequentemente pensei neles. A biblioteca fica só a dois quarteirões de distância.

Meu ex-marido me acompanhou até o balcão de Devolução. Ele interrompeu a bibliotecária, que tinha mais a dizer. De várias maneiras, disse ele, quando olho para trás, atribuo a dissolução de nosso casamento ao fato de você nunca ter convidado os Bertram para jantar.

É possível, eu disse. Mas, convenhamos, se você se recorda: em primeiro lugar, meu pai estava adoentado naquela sexta-feira, depois nasceram as crianças, depois eu tive aquelas reuniões nas noites de terça, depois estourou a guerra. Depois era como se já não os conhecêssemos. Mas você tem razão. Eu devia tê-los convidado para jantar.

Dei à bibliotecária um cheque no valor de 32 dólares. Imediatamente ela me teve confiança, esqueceu meu passado, limpou a ficha, exatamente o que outras burocracias municipais e/ou estatais se recusam a fazer.

Tomei de empréstimo os dois livros de Edith Wharton que eu acabara de devolver porque fazia muito que não os lia, e pareciam agora mais apropriados que nunca. Eram eles The House of Mirth e The Children, que é sobre como a vida nos Estados Unidos, em Nova York, mudou ao longo de vinte e sete anos cinquenta anos atrás.

Uma coisa boa que eu me lembro é o café da manhã, disse meu ex-marido. Fiquei surpresa. Nós só bebíamos café. Depois me lembrei que havia um buraco no fundo do armário da cozinha que dava para o apartamento vizinho. Lá, eles sempre comiam bacon defumado curado no açúcar. Isto nos dava uma impressão grandiosa do café da manhã, mas nunca ficávamos empanturrados e moles.

Isto quando nós éramos pobres, eu disse.

Quando foi que fomos ricos?, perguntou ele.

Ah, à medida que o tempo foi passando, que nossas responsabilidades aumentaram, nós não passamos necessidade. Você de fato tomou as devidas precauções financeiras, lembrei-lhe. As crianças iam para o acampamento quatro vezes por ano e metidas em ponchos decentes, com sacos de dormir e botas, como todos os outros. Tinham muito bom aspecto. Nossa casa era quente no inverno, e tínhamos bonitos travesseiros vermelhos e coisas.

Eu queria um veleiro, disse ele. Mas você não queria nada.

Não seja amargo, eu disse. Nunca é tarde.

Não, disse ele com muita amargura. Talvez eu compre um veleiro. Na verdade, acabo de dar entrada numa chalupa de dezoito pés. Estou folgado este ano e posso esperar coisa ainda melhor. Mas para você, é tarde demais. Você sempre não vai querer nada.

Ao longo dos vinte e sete anos ele tivera esse hábito de fazer um comentário mesquinho que, feito cabo de desentupimento, tinha a capacidade de ir descendo pela orelha, garganta abaixo, até atingir bem o meio do meu coração. Depois ele desaparecia, me deixando engasgada de equipamento. O que quero dizer é que me sentei na escada da Biblioteca e ele foi embora.

Folheei The House of Mirth, mas perdi o interesse. Senti-me extremamente acusada. Bem, é verdade, sou falta de demandas e requerimentos absolutos. Mas eu quero sim algo.

Quero, por exemplo, ser outra pessoa. Quero ser a mulher que devolve estes dois livros em duas semanas. Quero ser a cidadã eficaz que modifica o sistema educacional e se pronuncia junto ao Comitê Orçamentário acerca dos problemas deste querido centro urbano.

Eu havia prometido a meus filhos que acabaria com a guerra antes que eles crescessem.

Eu queria ter ficado casada para sempre com uma pessoa só, meu ex-marido ou meu atual. Ambos têm personalidade o suficiente para uma vida inteira, tempo que, feitas as contas, não é lá tão longo. Em uma só breve vida não se poderia exaurir as qualidades de nenhum dos dois, nem tampouco se embrenhar por debaixo da rocha de suas razões.

Hoje mesmo, pela manhã, fui à janela para olhar um pouco a rua e vi que os pequenos plátanos que a cidade plantara sonhadora pouco antes de nascerem as crianças haviam atingido, naquele dia, a flor da idade.

Pois bem! Decidi devolver aqueles dois livros na Biblioteca. O que prova que quando uma pessoa ou acontecimento surge para me chocar ou testar eu posso tomar as devidas atitudes, muito embora seja mais conhecida por meus comentários amistosos.

Tradução: Ismar Tirelli Neto

Revisão: Tassia Kleine

*

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Robert Glück, “Esquina da Sanchez com a Day”

Recentes debates sobre representatividade de gênero no mercado editorial brasileiro motivam-nos a colocar na roda, à guisa de contributo, este “Esquina da Sanchez com a Day”, narrativa de Robert Glück que abre seu livro Elements of a Coffee Service, publicado originalmente a 1981.

O texto fala por si só. Sendo, para desgáudio de muitos, empreitada literária e, portanto, humana, ele nos compele não só a estar à altura da pergunta “a quem falará?” como também a decidir, em última instância, se se trata ou não de um dilema falso. A narrativa de um homem perseguido por quatro brutamontes por ter ousado uma aproximação visual com alguém do mesmo sexo na rua (narrada por um sujeito que passava mais ou menos rotineiramente por este tipo de experiência, e talvez ainda passe) falará exclusivamente aos seus, aos que olham? aos que fogem? Falará exclusivamente aos aliados (e atentem para a quantidade assustadora de vezes que este termo imperdoavelmente militarista vem pululando pelos debates em torno do assunto; atentem nos que se valem de metáforas deste calibre em suas descrições da comunidade literária), os mesmos que seguem reforçando, por mais bem-intencionados que se pretendam, dinâmicas que, ao fim e ao cabo, só fazem assegurar ao patriarca heterossexual branco a autoridade de chancelar a existência do Outro, trazendo-a ao de cima, incorporando-a afinal a seu repertório de assuntos “universais”?

O partir do princípio de que a experiência homossexual – posto mais largo, de que a experiência minoritária – não se vem debruçando sobre si própria desde há muito nos acena duas possibilidades um bocado amargas: má-fé ou ignorância. Da parte de quem? Puramente do mercado editorial? É a hipótese da maioria. Mas vamos além. Não será o momento, afinal, de assumirmos frontalmente nossa parcela de responsabilidade na manutenção destas abomináveis engrenagens de “nenhumação” – não será produtivo e interessante para toda a comunidade declarar, alto e bom som, que nós somos, como escritores, tradutores etc., também o mercado editorial – e que, como membros, senão importantes, pelo menos pesados deste mercado (em verdade vos digo, amigos, nem só de editores vive o mercado editorial), podemos e devemos nos permitir gestos um pouco mais radicais e eficazes que meros dispositivos de cedência?

O fato de autores como Robert Glück, Dodie Bellamy, Bruce Boone, Dennis Cooper, Frank Bidart, Frank O’Hara, Kathy Acker, Quentin Crisp, Joe Orton e tantos outros não figurarem ainda nos catálogos de grandes editoras brasileiras – as mesmas grandes editoras que se apressam em publicar com ensurdecedora fanfarra qualquer calhamaço escrito por qualquer americano branco, contanto que ultrapasse a marca das quatrocentas páginas, afinal, há afetos olímpicos em jogo – pode sim ser interpretado como um projeto de silenciamento, um esfumaçamento intencional, um “trailing off” do discurso histórico que faz com que o público leitor brasileiro acabe tendo a leve impressão de que a experiência homoafetiva parou de refletir, organizar e articular a si própria com Tennessee Williams, Pasolini e Jean Genet. Isto está muito distante da realidade. Basta lembrar o ano em que Pier Paolo foi assassinado (e das ondas que andava fazendo na imprensa italiana de então). Basta dar-se conta de que tanto Genet quanto Williams morrem na década do “câncer gay”, golpe histórico cujo impacto ainda se faz sentir entre todos, homossexuais ou não. Basta lembrar que obras capitais a todo aquele que se reconheça minimamente interessado no estudo de vivências afetivas/sexuais desviantes, como o “Devassos no Paraíso” de João Silvério Trevisan ou “A Contestação Homossexual” de Guy Hocquenghem, são hoje em dia comercializados em caráter de “raridade” e vão cotados em sites especializados em livros esgotados a preços tão exorbitantes quanto R$ 400,00.

O enfrentamento é doloroso, naturalmente, mas é justamente disto que se trata, ao fim e ao cabo: dor e enfrentamento, atividade, constante negociação, modos de visibilidade que passem ao largo da sujeição e da usurpação. Boa literatura é coisa relativamente fácil de se fazer hoje em dia, quando se tem disciplina, tempo e acesso a uma que outra biblioteca interessante (sublinhe-se, por conta destas condições, o relativamente). Uma literatura tanto interessante quanto dotada de real densidade política – esta que, quando aparece, deve bater-se o tempo inteiro com o risco de ser repentinamente encurralada como “literatura de nicho” e prontamente apagada ou qualificada como “menor” quando é claramente tão universal quanto qualquer outra, e tantas (mas tantas) vezes superior em termos de qualidade – já não é feito tão usual ou visível, pelo menos no contexto do mercado editorial brasileiro atual.

Se o ficcionista brasileiro contemporâneo começa a ensaiar alguns passos rumo à vivência, digo, à contemplação do desvio, será mesmo o caso de agradecermos pela atenção, como se vivêssemos ainda as sujeições reinantes na primeira metade do século passado e seu vasto repertório de codificações, ou de nos demorarmos um pouco mais – e um pouco mais severamente – no que torna essa vivência interessante às vozes dominantes neste exato momento histórico? Se, em tese, já não precisamos de mediadores, por que precisamos ainda de mediadores? De que exatamente a homossexualidade se despe, o que ela entrega, de que se espolia ao ser incorporada a um universo ficcional que diligentemente a ignorou – salvo exceções – por tantas décadas? Que potência aflitiva ou desestabilizadora ela perde ao ser assimilada a qualquer discurso majoritário, e quem, em última análise, colhe os louros?

São estas as questões que pretendemos assuntar apresentando o texto a seguir, em que a diferença é tão claramente enunciada a ponto de enformar uma espécie de carta de intenção. A partir daquilo que o diferencia cotidianamente, Glück toma (estratégia poética por excelência) o partido da desnaturalização, optando por colocar diante do leitor a vivência do perigo e da perseguição — “when aren’t we being chased?” — como uma problemática real que demanda a atenção, os cuidados e o investimento moral de todos.

Isto, lembremos, há mais de 30 anos.

Que podemos fazer diante de pedido tão claro e contundente afora escutar, atentar e assegurar espaços para que estas vozes continuem ressoando com pujança e assertividade cada vez maiores, cada vez menos dependentes das atenções flutuantes de intermediários?

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robert_gluck

Robert Glück é um ficcionista, poeta, ensaísta e editor norte-americano conhecido por ter inaugurado, em companhia de Bruce Boone e diversos outros escritores atuantes em São Francisco em fins dos anos 1970, o movimento a que chamaram New Narrative. Ideado como reação ao programa vigente entre os poetas L=A=N=G=U=A=G=E, corrente identificada tanto por Glück como por Boone como excessivamente “straight male”, a New Narrative propunha o borramento de fronteiras entre conto, poesia, ensaio, memorialística, teoria, relato e “fofoca”. Glück vive e trabalha em São Francisco. Até o presente momento, nenhum de seus livros parece ter sido traduzido ao português.

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      ESQUINA DA SANCHEZ COM A DAY

 

            Certa manhã eu estava passeando com Lily ali pela esquina da 29ª com a Sanchez. Lily, cujo lema é “melhor prevenir do que remediar”, trotava não muito adiante, evitando Dobermans e dando alô aos pedestres, aceitando gravemente os seus elogios – seus cílios dourados e rabo extravagante. Uma picape Chevrolet virou a esquina bem na minha frente e eu provavelmente olhei fundo demais o sujeito no banco do carona, que tinha perfil vistoso. De repente eles começaram a gritar “viado” e “viado de merda”. Eu andava de bom humor e com um último resquício de efervescência levantei-lhes o dedo médio, coisa de que me arrependi instantaneamente porque a caminhonete freou com um barulho estridente e começou a manobrar para dar a volta. Eram quatro, estava rindo e gritando. Lily e eu demos o fora. Corremos pela Sanchez e viramos na esquina com a Day rentes à caminhonete. Um deles quase me acerta com uma lata de cerveja. Estavam rindo e guiando paralelamente a nós, mas cortamos a Day, saltamos uma mureta de arrimo e atravessamos uma cerca para ciclones por um buraco que eu já conhecia. A cerca envolvia um grande campo onde às vezes eu levava Lily para passear de noite, dando-lhe a oportunidade de circular sozinha um pouco e desfrutar dos úmidos cheiros de terra e plantas.

            Se eles não se separassem, então a vantagem era minha, já que o campo tinha entradas de ambos os lados. Postei-me no centro na grama cortada na cara luz do sol de São Francisco; a duas quadras, os sinos começaram a badalar rumo ao meio-dia, e eles jamais atacariam alguém em plena luz do dia, a não ser, é claro, que o fizessem. Você vai compreender o meu medo porque a televisão nos treinou para entender o medo de um homem que corre. Não esperava viaturas de polícia; atacar um homossexual não é delito tão claro quanto, digamos, roubar um pacote de queijo processado. O cheiro de grama cortada me lembrou a infância de minha mãe em Denver, porque ela vive dizendo que o cheiro a lembra disso. Ela passava lá os verões com minha tia-avó Charlotte, mulher de porte aristocrático que alimentava as crianças com tonéis de morangos com creme espesso e pão de padaria com grandes placas de manteiga. Isto antes dos dias do colesterol. Mas Charlotte também militava por uma alimentação saudável, arroz integral e nada de açúcar, o que demandava um bocado de independência há obra de uns cinquenta anos. Pois isso ela tinha de sobra. Lembro que, depois do funeral do tio Harry, alguém tocou a campainha e uma imensa cesta de frutas vindas de Denver foi entregue em mãos à minha mãe. O entregador disse, muito sóbrio: “A Sra. Isaacs faz absoluta questão de que você receba esta mensagem. Lave tudo antes de comer”. Na sequência, me lembrei da recente conversa que minha mãe teve ao telefone com Charlotte, que disse, “Você era uma menina tão bonita, você ainda é bonita?”. E minha mãe retrucou: “Charlotte, estou caminhando para os sessenta”. Minha mãe, que é, acima de todas as coisas, uma neta, uma filha, irmã, prima, sobrinha, esposa, mãe, cunhada, tia e avó. Até o momento o incidente não fora lá grande coisa e acontecera rápido, mas tinha aquele arrastado que precede a violência, então tentei me fortalecer na segurança de memórias familiares de infâncias e velhices.

            Por outro lado, tive muito tempo para recordar os dentes quebrados de Kevin e Bruce levando dura atrás de dura da polícia, e aquele Dia das Bruxas quando um homem berrando “boiola” perseguiu a mim e ao Ed com um cano de metal; e recordar também um conhecido, malemal um rosto, que um dia se sentou no chenile azul do sofá na minha cozinha. Ele foi assassinado por alguém que levara para casa, os vizinhos chegaram a ver o rosto do assassino durante a noite. Eis a conclusão lógica a este catálogo de traições: o assassino ataca quando você está nu e espera ternura e cada um, por acordo tácito, é anfitrião da vulnerabilidade do outro. O céu fechou, fazendo com que o verde, que estivera estourado, relaxasse até assumir plenamente sua cor. Relembrar estes acontecimentos não indicava necessariamente nada de urgente, não são isolados como os isolam a gramática de frase e parágrafo. A ameaça de violência física constitui uma parte do todo. A faculdade e minha educação literária concordavam em que eu deveria encarar a mim mesmo como uma conjunção aleatória de possibilidades vitais, decerto um ponto de vista luxuoso, invejável. Mas é difícil recorrer a este modelo quando quatro caras estão perseguindo você na rua. Que vida este modelo sustentará, e quando é que não estamos sendo perseguidos? A caminhonete fez a volta, parou na entrada da Rua 30, os homens saíram um por cima do outro. Esperei até que todos tivessem deixado a picape e saí pelo lado oposto com Lily caminhando junto às minhas pernas. Os olhos dela estavam dilatados; vibrava, totalmente deliciada pela fuga. Corremos até a Church, viramos a esquina e nos esgueiramos para dentro de um hortifruti.

            O mercadinho estava cheio de morangos e do cheiro dos morangos. Peguei duas cestas, certificando-me de que estavam vermelhos tanto em cima quanto em baixo, de que não estavam mofados, que tinham cheiro forte e saudável. Pessoas da Tailândia administravam a loja e, curiosamente, pareceu-me, tinham sintonizado a rádio na estação de música country. “Stand by Your Man”, de Tammy Wynette, a versão intimista de Willie Nelson para “Georgia on my Mind”, canção inteligente – e aquela dos Eagles que começa desenrolando a bonita palavra desperado. A estas, seguiu-se um tipo de canção que eu gosto muito, em que duas pessoas trocam versos de pergunta e resposta. Ela trabalhava no turno da manhã e seu marido, no turno da noite. Moravam em Pittsburgh e bem se poderia chamá-los os Pittsburgh Steelers porque, com aquelas vozes ressoantes de dor country tornando o chiste dimensional, roubavam amor e prazer sempre que tinham oportunidade. Você pode pensar que gosto da canção porque me identifico, mas isto seria um equívoco. O amor deles era um esconderijo infantil para chocolates, encafuado na diferença entre suas vidas e suas necessidades. É verdade que carrego na minha espinha, pulsos e joelhos o olhar de um homem com o qual me cruzei há três anos caminhando pela rua 18, e o choque que senti ao constatar que ele era inteiramente de meu agrado. Mas a diferença entre mim e esses queixumosos cantores é maior. A diferença: caminhando pela rua 29 um bando de homens numa caminhonete me gritou “viado”.

            A canção terminou e ouvi então uma freada estridente e depois: um dois três, pôu! – alguém se deu mal. Olhamos pela janela e vimos a caminhonete amarfanhada contra um poste. Um dos para-choques amassara-se como se fosse feito de papel-alumínio e eles ficaram ali parados, trajando sorrisos incertos, parecendo pequenos e desnorteados. Divisei o sujeito bonito e quando ele se voltou levava as mãos postas sobre uma barafunda de sangue na cara. Fiquei lá um minuto, gozando o puro prazer de inspirar e expirar. Resolvi fazer a cama, deitar fora uns papéis, ler os Cadernos do Cárcere do Gramsci, ter uma vida social ativa – não, célebre.

            É claro que isto seria um final satisfatório, ainda que frívolo. O que aconteceu de fato foi que os homens e a caminhonete sumiram, a não ser da minha imaginação. Tive sonhos raivosos. Mesmo nas minhas fantasias eróticas não consegui banir uma violência que retorcia a trama, afastando-a do prazer e aproximando-a do medo e da confusão. E o que resolvi foi isto: que eu guinaria a minha escrita a relatar-lhes incidentes como este na esquina da Sanchez com a Day, colocá-los diante de vocês como questões reais que precisam de respostas, e que estas questões, aliadas à minha compreensão e à minha prática, se tornariam mais enérgicas e precisas.

Tradução: Ismar Tirelli Neto

Revisão: Tassia Kleine e Tiago Macedo 

*

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Jean Rhys, “O Som do Rio”

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Nascida a 1890 na ilha caribenha de Domínica, a ficcionista Jean Rhys é mais conhecida por seu romance Vasto Mar de Sargaços (Wide Sargasso Sea), publicado em 1966, espécie de prequel ao clássico “Jane Eyre” em que a “louca do sótão”, primeira esposa do personagem principal, assume o protagonismo. Porém, a carreira literária de Rhys principia muito antes, em fins da década de 1920, após anos de deambulação e precariedade, tanto na Inglaterra quanto na França. Entre 1927 e 1939, Rhys publica boa quantidade de romances e coletâneas de contos, o mais dos casos tematizando as duras experiências vividas desde sua mudança para a Inglaterra, aos 16 anos. A secura e ironia de seu estilo, traços especialmente marcantes desta primeira produção, formam uma violenta aliança com a ternura mortificada que vota às figuras marginalizadas da sociedade. Seus relatos da “margem esquerda” oferecem ao leitor uma visão aterradora da alegre Paris dos anos 1920, infinitamente glamourizada por outros escritores que lá se fixaram ao longo da mesma década.

Além da tradução de Lea Viveiros de Castro para Vasto Mar de Sargaços, conhecemos de Jean Rhys apenas mais uma tradução ao português brasileiro – o romance “Bom-dia, Meia-Noite”, traduzido por Carmen Velasquez, dado à estampa em 1985 pela Art Editora (Coleção As Escritoras).

Oferecemos hoje uma tradução do conto “The Sound of the River”, publicado originalmente no volume Tigers Are Better-Looking, de 1968.


***

O Som do Rio

A lâmpada elétrica pendia de um curto cordão ao centro do teto, e como não havia luz suficiente para ler, ficaram deitados na cama, conversando. O ar noturno empurrava para fora as cortinas e entrava, suave e úmido, pela janela aberta.

“Mas do que você tem medo? Que quer dizer com ‘medo’?”

Ela disse, “Medo, como quando a gente quer engolir e não consegue”.

“O tempo inteiro?”

“Quase o tempo inteiro.”

“Francamente, meu bem. Você é de fato uma idiota”.

Quanto a isto não, ela pensou. Quanto a isto não.

“É só um humor,” disse ela. “Vai passar.”

“Você é tão inconsistente. Foi você que escolheu este lugar e quis vir para cá, pensei que o aprovasse”.

“Aprovo. Aprovo a várzea e a solidão e o arranjo todo, sobretudo a solidão. Gostaria apenas que parasse de chover de tempos em tempos.”

“Solidão não é problema”, disse ele, “mas precisa de tempo bom.”

“Talvez amanhã faça bom tempo.”

Se eu conseguisse colocá-lo em palavras, talvez fosse embora – ela estava pensando. Às vezes você consegue colocá-la em palavras – quase – e portanto livrar-se da coisa – quase. Às vezes, é possível dizer-se concedo que hoje tive medo, tive medo dos rostos lisos e lustrosos, dos rostos de rato, da maneira como riam no cinema. Tenho medo de escada rolante e olhos de boneca. Mas não existem palavras para este medo. As palavras ainda não foram inventadas.

Ela disse, “Quando parar de chover volto a gostar”.

“Você estava gostando ainda há pouco, não estava? Ali perto do rio?”

“Bom”, disse ela, “não. Não muito.”

“Estava só um pouco fantasmagórico ali essa noite. Que mais se pode esperar? Jamais escolha um lugar quanto estiver fazendo bom tempo.” (Ou qualquer outra coisa, ele pensou). “Há muitos pinheiros em volta”, ele disse. “Eles oprimem.”

“Sim.”

Mas não eram os pinheiros negros, ela pensou, nem o céu sem estrelas, nem a magra e insinuada lua, nem as baixas colinas de topo chato, nem o penhasco e as grandes rochas. Era o rio.

“O rio está muito quieto’, ela dissera. “Será por estar tão cheio?”

“A gente se habitua ao som, creio. Vamos entrar e acender a lareira do quarto. Queria tomar um trago. Daria tudo por um trago, e você?”

“Podemos tomar café”.

No caminho de volta, ele mantivera a cabeça voltada à água.

“Parece curiosamente metálico nesta luz. Nem de longe lembra água.”

“Parece liso, como se estivesse congelado. E muito mais largo.”

“Congelado – não. Bastante vivo, de alguma maneira insólita. Cabelo cascateando”, ele disse, como que de si para si. Pois então o sentira também. Deitada, ela ficou rememorando como o rio – veloz, marrom, de superfície rachada – mudara à luz da lua. As coisas são mais poderosas que as pessoas. Sempre acreditei nisso. (Filha minha não tem medo de cavalo. Filha minha não tem medo de enjoar no mar. Filha minha não tem medo dos contornos de uma colina, ou da lua quando fica velha. Na realidade, filha minha você não é).

“Não está silencioso agora, está?”, ela disse. “Refiro-me ao rio.”

“Não, daqui se ouve um barulho.” Ele bocejou. “Vou colocar mais um tronco no fogo. Muita gentileza da parte de Ransom nos ter cedido carvão e madeira. Ele não nos prometeu nenhum luxo do tipo quando decidimos pelo chalé. Não é mau sujeito, não acha?”

“Ele tem coração. E deve conhecer bem o clima local, afinal de contas.”

“Bom, eu gosto daqui”, ele disse ao voltar para a cama, “apesar da chuva. Sejamos felizes aqui”.

“Sim, sejamos”.

Essa é a segunda vez. Ele já disse isso antes. Ele o dissera no dia em que chegaram. Também naquela ocasião ela não respondera “sim” de imediato porque o medo que andava à sua espera se havia achegado e lhe tocado, e muitos segundos transcorreram até que conseguisse falar novamente.

“Aquilo que vimos no início da noite deve ter sido uma lontra”, ele disse, “era grande demais para ser um rato-de-água. Vou contar para o Ransom. Ele vai ficar muito animado.”

“Por quê?”

“Ah, são um bocado raras por estas bandas.”

“Coitadas. Aposto que devem sofrer muito, se são raras. O que ele vai fazer? Organizar uma caçada? Talvez não, já concordamos que ele tem bom coração. Isto aqui é um santuário de pássaros, sabia? É todo tipo de coisa. Vou contar para ele do pássaro com o peito amarelo. Talvez ele saiba dizer o que era.”

Aquela amanhã ela o observara voejando para cima e para baixo, junto à janela – espoco de amarelo na chuva. “Ah que pássaro bonito”. O medo é amarelo. Você é amarela. Ela é toda traçada em amarelo. Eles têm razão, o medo é de fato amarelo. “Não é bonito? E persistente? Está obstinado em entrar…”

“Vou apagar essa luz”, ele disse. “Não adianta de nada. A lareira é melhor.”

Ele riscou um fósforo para acender outro cigarro e quando este se iluminou ela pôde ver o encovado sob seus olhos, a pele retesada sobre as maçãs do rosto e o fino dorso do nariz. Ele estava sorrindo como se soubesse em que ela estivera pensando.

*

“Há algo que não lhe meta medo quando está com esses humores?”

“Você”, ela disse. O fósforo apagou. Não importa o que aconteceu, ela pensou. Não importa o que você fez. Não importa o que eu fiz. Você, nunca. Ouviu bem?

“Que bom.” Ele riu. “Isto é um alívio”.

“Amanhã vai fazer bom tempo, você vai ver. Daremos sorte”.

“Não conte com nossa sorte. Você já devia ter aprendido a essa altura”, ele resmungou. “Mas você é do tipo que não aprende nunca. Infelizmente, nós dois somos do tipo que não aprende nunca.”

“Está cansado? Você soa cansado.”

“Sim”. Ele suspirou e voltou-lhe as costas. “Estou sim, um bocado”. Quando ela disse, “Preciso acender a luz, quero uma aspirina”, ele não respondeu, e ela esticou o braço por cima dele e tocou no interruptor da fraca lâmpada. Ele estava dormindo. O cigarro aceso caíra sobre o lençol.

“Que bom que eu vi isso”, disse em voz alta. Ela apagou o cigarro, jogou-o pela janela, encontrou as aspirinas, esvaziou o cinzeiro, protelando o momento em que deveria esticar-se na cama novamente, à escuta, o momento em que fecharia os olhos para fatalmente senti-los se abrindo de novo com um clique.

Não caia no sono”, pensou ali deitada. “Fique acordado e me conforte. Estou com medo. Há qualquer coisa aqui que mete medo, estou lhe dizendo. Por que você não consegue senti-lo? Quando você disse, sejamos felizes, naquele primeiro dia, havia uma torneira pingando numa tina cheia em algum lugar, tocando uma melodia alegre e horrível. Você não ouviu? Eu ouvi. Não me volte as costas e suspire e durma. Fique acordado e me conforte”.

Ninguém vai confortá-la, ela disse para si própria, já devia ter aprendido a esta altura. Recomponha-se. Houve tempo em que você não tinha medo. Não houve? Quando? Quando foi este tempo? É claro que houve. Vamos. Recomponha-se, descomponha-se. Houve tempo. Houve tempo. Além do mais, vou dormir em breve. Há sempre o sono, e amanhã fará bom tempo.

“Sabia que hoje faria bom tempo”, ela pensou ao ver a luz do sol pelas finas cortinas. “O primeiro dia de tempo bom”.

“Está acordado?”, ela disse. “Está fazendo um dia lindo. Tive um sonho tão engraçado”, ela disse, fixando ainda a luz do sol. “Sonhei que estava caminhando por um bosque e as árvores gemiam e depois sonhei com vento nos fios de telégrafo, bom, era parecido, só que muito alto, ainda ouço – de verdade juro não estou inventando. Ainda está na minha cabeça e não é outra coisa senão talvez meio parecido com vento nos fios de telégrafo”.

“Está fazendo um dia lindo”, ela disse e tocou-lhe a mão.

“Minha nossa, como você está frio. Vou pegar uma garrafa de água quente e um pouco de chá. Vou pegá-los porque estou me sentindo muito enérgica hoje, você fique aí quietinho por uma vez na sua vida!”

“Por que não responde?”, ela disse, sentando-se e escrutando-o. “Você está me assustando”, ela disse, a voz elevada. “Está me assustando. Acorde”, ela disse e o sacudiu. Assim que o tocou seu coração inchou-se até atingir a boca. Inchou-se e dele brotaram pontudas garras e as garras lhe apanharam e fincaram fundo. “Deus”, ela disse, e levantou-se e abriu as cortinas e viu o rosto dele à luz do sol. “Deus”, ela disse, mirando-lhe o rosto no sol ajoelhada junto à cama com a mão dele entre suas duas mãos não falando não pensando mais.

*

O doutor disse, “Você não ouviu nada durante a noite?”

“Pensei que fosse um sonho”.

“Ah! Você pensou que fosse um sonho, entendi. Que horas acordou?”

“Não sei. Colocamos o relógio em outro cômodo porque o barulho era muito alto. Creio que por volta de oito e meia, nove”.

“Você entendeu o que havia se passado, naturalmente”.

“Não tinha certeza. A princípio, não tive certeza.”

“Mas o que fez? Já passava das dez quando você telefonou. O que fez?”

Nem palavra de conforto. Suspeita. Ele tem olhos pequenos e sobrancelhas espessas e parece suspeitar.

Ela disse, “Coloquei o casaco e fui até a casa do Sr .Ransom, onde há um telefone. Corri o trajeto inteiro, mas parecia muito longe.”

“Mas isso não deve ter lhe custado mais de dez minutos, no máximo”.

“Não, mas parecia muito longe. Corri porque parecia que eu não estava me mexendo. Quando cheguei lá não havia ninguém e o cômodo onde fica o telefone estava trancado. A porta da frente está sempre aberta, mas ele fecha aquele cômodo a chave quando sai. Voltei para a estrada e não havia ninguém lá. Ninguém na casa e ninguém na estrada e ninguém na encosta da colina. Havia muitos lençóis e camisas masculinas acenando de um varal. E o sol, claro. Nosso primeiro dia. Nosso primeiro dia bom”.

Ela olhou o rosto do doutor, parou e continuo com voz diferente.

“Andei para cima e para baixo um pouco. Não sabia o que fazer. Pensei então que talvez conseguisse arrombar a porta. Então tentei e arrombei. Uma tábua se rompeu e consegui entrar. Mas muito tempo pareceu se passar até que alguém me atendesse”.

Ela pensou, Sim, é claro que entendi, atrasei-me porque tive que ficar postada ali, à escuta. Naquela hora o ouvi. Ficou mais alto e mais próximo e estava no quarto comigo. Eu ouvi o som do rio.

Eu ouvi o som do rio.

Tradução de Ismar Tirelli Neto
Revisão de Tassia Kleine e Tiago Macedo

***

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Russell Edson

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Lemos em alguma parte que Russell Edson costumava referir-se a si próprio como O Pequeno Senhor Poema em Prosa. Tendo explorado as possibilidades do formato por quase toda sua carreira literária, Edson é tido por grande parte da crítica especializada como o grande consolidador deste tipo de escrita nas letras americanas. “Antes de tornar-se moda”, lemos também em alguma parte. E também, cabe ressaltar, depois do Sr. Plume de Henri Michaux, cujas desventuras vieram a público originalmente em fins dos anos 1930; depois também de Gertrude Stein atentar contra a bem estância do público leitor de então com seu Tender Buttons, volume em que jarras, xícaras e demais utensílios são a todo tempo “tornados” inúteis por um sistema de escrita que lhes recusa função e sentido no plano mesmo da linguagem.

Reconhecemos nos personagens e nas situações imaginadas por Edson – nascido em Connecticut e filho de pai cartunista – tanto a aguerrida patetice de Plume quanto a perturbadora iminência de inutilidade que perpassa os textos de Tender Buttons, mas com algumas diferenças. Há mais ternura desafetada nos construtos de Edson; as figuras, humanas ou não, de que lança mão em suas composições raramente nos chegam nomeadas, particularizadas, ainda assim destacando-se nos textos como cores primárias em meio a um quadro cinzento, feito ele próprio das indistinções do mundo à nossa volta. Não há, porém, um Plume para centralizar a perplexidade diante de um mundo absurdo, e o tal absurdo não é textualizado com a opacidade estudada de um Tender Buttons. A recusa do extraordinário na dicção de Edson – “um homem”, “uma mulher”, “uma mãe”, “um filho”, “uma casa”, “um macaco” – envia-nos ora à fábula, ora ao causo, mas sobretudo à falência de ambos os modos. Este mau funcionamento do texto – que, por se apresentar como fábula, desejamos claro em sua instrução moral; e por se apresentar como causo, desejamos divertido de forma leve e sem muita ressonância –, porém, não só não frustra o leitor, como sugere que há muitas maneiras de habitar o desarrazoado do mundo em que vivemos.

Os poemas abaixo foram traduzidos a partir do volume The Tunnel: Selected Poems, publicado em 1994, dez anos antes de seu falecimento.

*

Amor

Cão, me ame, disse um homem a um cão. Um cão não disse nada.
Contudo um caco de vidro quando acertadamente com o sol brilhou para dentro de seu olho – eu te ouço, disse o homem.
Contudo uma folha retorcendo-se em seu caule pois o vento queria ir a alguma parte fez o homem tornar a si – Quer dizer que está dizendo tal e coisa, disse.
Ele reparou nas rugas em seu sapato – Estiramento muscular que é o que é um sorriso; meu sapato está sorrindo para mim. Sapato, te amo, me ame. Contudo o sapato limitou-se a caminhar, sua cabeça pairando acima…
Cabeça, cabeça, me ame, ele disse à sua cabeça.
Sua cabeça tinha uma narina. Ele a sentia. Havia duas. Uma narina devia ter tido nenê.
Contudo sua narina soprava ar nos seus dedos.
Também posso soprar ar numa narina. Então ele entortou os lábios e soprou ar em suas narinas.

Love

Dog, love me, said a man to a dog. A dog said nothing.
But a piece of glass when properly with the sun glittered into his eye — I hear you, said the man.
But a leaf wristing on its stem because the wind wanted to go someplace, turned the man to itself — So you are saying such and such, he said.
He noticed wrinkles on his shoe — Muscle stretch which is what a smile is; my shoe is smiling at me. Shoe, I love you, love me. But his shoe merely walked on, his head hovering above it . . .
Head, head, love me, he said to his head.
His head had a nostril. He felt it. There were two. One nostril must have had a baby.
But his nostril blew air at his fingers.
I can blow air at a nostril too. So he screwed up his lips and blew air at his nostrils.

*

Um bigode vermelho

Uma mulher corpulenta com um pau de macarrão disse, eu sou o rei.
Uma mosca pousou em seu nariz. Ela acertou a mosca em seu nariz com seu pau de macarrão. Não perturbe Sua Alteza com trivialidades, disse, enquanto o sangue de seu nariz formava um bigode vermelho.
Querida, disse seu esposo, você está com um bigode vermelho.
A mulher que é rei recuou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho.
A mulher que é rei avançou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho e disse, querida, que bigode vermelho é esse?
Sou rei de todas as coisas, ela disse, sou rei Mamãe.
E o pau de macarrão, meu bem?, ele disse.
É o cetro da brutalidade, ela disse.
E o avental e o cabelo em seu pequeno e engordurado coque? disse ele.
Que é a fortaleza e a imagem que o povo virá a temer, ela disse.
E o bigode vermelho, tão fora de esquadro numa gorda dona de casa de meia-idade? ele disse.
O bigode vermelho ao qual você constantemente se refere é o brasão do mandato, a troca de gênero, o golpe autoinfligido, a pelugem secundária de minha virilidade, o fim de minha menopausa, o retorno à donzelice, o mênstruo cerebral escorrendo pelo nariz em vez das partes baixas…, ela disse.
Mas e o bigode vermelho? ele disse.
Se faz mesmo questão de saber, matei uma mosca no meu nariz com um pau de macarrão, ela disse.
Matou não, ela está voando ali pelo teto, ele disse.
Veja só, está na sua cabeça, ela disse.
Alto lá, ele gritou.
Tenho que matá-la, ela disse.
Não, não faça isso, ele gritou.
Vai pousar no meu nariz, ela disse.
Ó por favor limpe o sangue do rosto e vá tratar da janta, ele gritou.
Ó ó ó, berrou ela, não sei o que fazer. Ó ó ó…
Lave o rosto, ele disse.
Não, isto não é coisa que se faça, ó ó ó, berrou ela.
Bem o que é que é isso de repente de bigode vermelho? ele disse.
Ó quero ser amada mais que todo o restante, ó ó ó…. ela berrou.

A Red Mustache

A heavy woman with a rolling pin said, I am the king.
A fly lighted on her nose. She hit the fly on her nose with her rolling pin. Do not disturb her highness with trivialities, she said, as the blood from her nose formed a red mustache.
Darling, said her husband, you have a red mustache.
The woman who is king backed up.
Her husband watched her red mustache.
The woman who is king came forward.
Her husband watched her red mustache and said, darling, what’s with the red mustache?
I am king of everything, she said, I am king Mama.
And the rolling pin, dearest? he said.
Is the scepter of brutality, she said.
And the apron and the hair in its greasy little bun? he said.
Which is the fortress and the image that people shall come to fear, she said.
And the red mustache, so outlandish on a fat middle-aged hausfrau? He said.
The red mustache which you constantly refer to is the sign of office, the change of gender, the self inflicted blow, the secondary hair of my manhood, the end of my menopause, the return to maidenhood, the cerebral menses from my nose instead of my under part . . . , she said.
But what about the red mustache? he said.
If you really must know I killed a fly on my nose with a rolling pin, she said.
No you didn’t, he’s flying around on the ceiling, he said.
Oh look, he’s on your head, she said.
Hold it, he screamed.
I must kill it, she said.
No, don’t, he screamed.
It’ll get on my nose, she said.
Oh please clean the blood off your face and cook dinner, he screamed.
Oh oh oh, she cried, I do not know what to do. Oh oh oh . . .
Wash your face, he said.
No, that is not a thing to do, oh oh oh, she cried.
Well what is it, suddenly, with that red mustache? he said.
Oh I want to be loved more than all things else, oh oh oh . . . , she cried.

*

Aparição

Havia por vezes uma paisagem onde uma rocha uma pessoa e uma pedrinha e será que vai chover algum dia se juntaram certo dia para aparecer.
Havia uma paisagem que tornou-se um quarto para buscar uma casa, para lá resolver ficar, depois envelhecer na casa que encontrar.
Então o sol entrou pela janela de um quarto e despertou uma pessoa que pôs o café dentro de uma xícara dentro de sua cabeça.

Appearance

There was a landscape once in a while where a rock a person and a pebble and will it rain one day, gathered one day to appear.
There was a landscape that became a room to search for a house, to decide to stay there, then to be old in a house it finds.
And so the sun came in a room’s window and woke a person who poured coffee out of a cup into his head.

*

Ser de alguma utilidade

Se a cabeça pudesse ser transformada numa espécie de galpão para animais seria possível fazer um bom dinheiro, pequenos animais de que pudéssemos lucrar os ovos ou a pelagem, fazendo-se necessário portanto partir e tratar então de certos negócios.

Havia certa pedra que no meio de um bosque foi muito exitosa, mas isto não é para mim.
Menino, quisera me tornar um automóvel, mas cresci e me tornei um homem de trinta anos.

Executar trabalhos úteis como erguer a mão ar adentro e beliscar a parte de baixo de uma nuvem.

O caminhar sobre os quadrados negros do linóleo da cozinha da mãe poderia ser revertido em lucro, digamos, prendendo-se um barbante ao ouvido de um indivíduo o qual poderia estar ligado numa cidade longínqua à boca de um boneco, ou através do Oceano Atlântico a um moinho holandês em dia de pouco vento.
Ou um bocejo poderia ser utilizado como prelúdio ao sono.

Disse à mãe que a cabeça poderia ser usada para abrigar peixes tropicais, e disso se poderia cavar uma renda modesta – um por assim dizer negócio por correspondência, remeter-se a si próprio num caixão – poupando gastos com contadores retendo-se, por assim dizer, o negócio na própria cabeça.
A mãe me deu um tapa na boca, coisa de difícil interpretação.

Para não me sentir muito inútil hoje em dia mantenho-me ocupado fumando cigarros e bebendo café. Não me oponho a gastar meu tempo dormindo contanto que esteja fazendo algo útil com meu tempo.

Tivesse eu mais braços e pernas consideraria seriamente me tornar a armação de um guarda-chuva – com alguma excitação sexual meu pênis poderia fazer as vezes de cabo – já não é ele usado para ajudar velhas senhoras a subir e descer escadas.

Por vezes apenas respiro. Já fez isso, pergunto. Digo à mãe, veja estou respirando.
Obtenho pouco reconhecimento – ou então minha mãe é parcimoniosa com seus elogios apenas para que eu não me acomode sobre os louros – que eu mantenha um olhar firme e constante à escuridão que os outros optam por chamar de futuro.

Busco uma terra onde eu possa ser de alguma utilidade – ou, posto melhor, que minha utilidade possa obter algum reconhecimento – que, em outras palavras, a mãe possa eventualmente escrever ao deputado de sua predileção acerca de meu valor – e que os jornais possam encher-se de matérias ilustradas intituladas: Ele Fuma Um Cigarro – Ele Consegue Respirar – Etc. E que multidões se postem do lado de fora da casa, dando vivas enquanto durmo.

Talvez me desse sorte beijar o rosto do relógio da cozinha. Talvez suas mãozinhas me envolvessem extáticas o pescoço, e seríamos então felizes.

Estou certo de que a felicidade não está muito longe.

To Be of Some Use

If the head could be converted into a sort of shack for animals one might turn a pretty penny, small animals that profit one their eggs and fur, as one must leave and so make certain business arrangements.

There was a certain stone that did very well in the middle of a wood, but then that is not for me.
As a child I had wanted to become an automobile, but then I grew up to be 30 years old.

To do useful work like lifting one’s hand into the air and pinching the underside of a cloud.

The walking of the black squares on the linoleum in mother’s kitchen might be turned to profit, say by hooking a string to one’s ear which could be attached in a distant city to a dummy’s mouth, or across the Atlantic to a Dutch windmill on a day when there is little wind.
Or a yawn might be used as a prelude to sleep.

I said to mother the head might be used to keep tropical fish in, and one might carve out a small income — a mailorder business so to speak, mailing oneself in a coffin — saving the costs of a book-keeper by, so to speak, having the business in one’s head.
Mother slapped me across my mouth, which one is hard put to interpret.

Not to feel too useless these days I keep myself busy smoking cigarettes and drinking coffee. I am not against spending my time sleeping just as long as I am doing something with my time.

Had I more arms and legs I would seriously consider becoming the frame for an umbrella — with some sexual arousement my penis could be used as the handle — Is it not already used to help old ladies up and down stairs.

Sometimes I just breathe. Did you ever do that. I say to mother, look I am breathing. I get little recognition — or mother is scanty with praise only that I might not rest on my laurels — that I will keep a firm and steady gaze into the darkness that others choose to call the future.

I seek a land where I might become of some use — or rather my use might come to some recognition — that in other words, mother might come eventually to write her congressman of my worth — and that the daily papers might be filled with picture stories, titled: He Smokes A Cigarette — He Can Breathe — Etc. And that crowds might stand outside the house cheering me as I sleep.

Perhaps I should kiss the face of the kitchen clock for luck. Perhaps its little hands with rapture would encircle my neck, and we might be happy.

I am sure happiness is not too far away.

*

O Épico

Eles perderam o bebê no esgoto. Pode ser que corram até o mar, onde o esgoto é esvaziado. Ou pode ser que fiquem esperando lá onde o perderam; quiçá volte do futuro, tendo encontrado sob a cidade a sua idade viril.
Decerto correm o risco de o bebê se ter tornado lixo, uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Ela não está certa de que poderia amar uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Não tem problema, meu bem, porque tudo sucede sob o sorriso de Deus.
Mas por que, em nome de Deus, Ele está sorrindo?
Porque Ele sabe o final.
Mas não estamos ainda caminhando para lá?
Sim; mas Ele já viu diversas vezes.
Viu o que diversas vezes?
Esse filme, que Ele produziu e dirigiu. No qual Ele estrelou… Sabe, aquele em que Ele desempenha todos os papéis num elenco de bilhões… a história de um marido e mulher que perdem seu bebê no esgoto…
Ah, esse filme; chorei do início ao fim.

The Epic

They have lost their baby down a sewer. They might run to the sea where the sewer empties. Or they might wait where they have lost him; perhaps he returns out of the future, having found his manhood under the city.
Surely they risk his having turned to garbage, an orange peel with a bag of chicken guts.
She is not sure she could love an orange peel with a bag of chicken guts.
It’s okay, honey, because everything happens under the smile of God.
But why, in heaven’s name, is He smiling?
Because He knows the end.
But aren’t we still getting there?
Yes; but He’s seen it several times.
Seen what several times?
This movie, the one He produced and directed. The one He starred in
. . . You know, the one where He plays all the parts in a cast of billions
The story of a husband and wife losing their baby down a sewer . . .
Oh that movie; I cried through the whole thing.

*

O Reino

… Curioso, meu relógio está derretendo no meu pulso.
Será que é doloroso?
Tenho vivido em minha mente.

Lá pelas províncias de minhas extremidades, onde todo acontecimento parece central, um simples populacho de dedos, por hábitos jungido, começa a deparar provas de que a natureza está, afinal, mudando de ideia.

Lá pela província de meu pulso esquerdo, meu relógio está derretendo – mãos esticadas, crispam-se de volta para o seu seio de números no repentino calor. A súplica de um velho.
Tempo, o trazedor, por fim a tudo arruína.

Tenho vivido em minha mente. A dor cavalga para dentro. Já não me importo; o rei está doente de dúvida.

The Kingdom

. . . That’s funny, my watch is melting on my wrist.
I wonder if it’s painful?
I have been living in my mind.

Out in the provinces of my extremities, where any event seems central, a simple folk of fingers, yoked in habits, are beginning to find evidence that nature is at last changing its mind.

Out in the province of my left wrist, my watch is melting — hands reaching out, curl back to their breast of numbers in the sudden heat. An old man’s supplication.
Time the bringer, finally ruins everything.

I have been living in my mind. Pain rides in. I no longer care; the king is sick with doubt.

*

Como estão indo as coisas

para Michael Cuddihy

Um homem registra alguns pombos num hotel. Eles voam para seus quartos. Não está certo de que sua mente não voe com eles…
Ele pergunta ao recepcionista se tudo parece direito. Gostaria de saber se a fumaça saindo de seu cigarro é real, ou não será algo que a gerência do hotel mandou pintar na parede?
O recepcionista deu-lhe as costas e está separando a correspondência.
Senhor…, diz o homem.
Mas o recepcionista continua organizando a correspondência.
Senhor, poderia olhar nesta direção um instante?
Posso ouvi-lo, estou só separando a correspondência.
Gostaria que reparasse na fumaça do meu cigarro… Já que os pombos voaram para os seus quartos… O futuro, nunca se sabe, quer dizer, em que pé as coisas vão ficar… Por gentileza, poderia verificar minha fumaça…?
Quando o recepcionista se volta o seu rosto está coberto de cabelo, como a parte de trás de sua cabeça; e a frente de seu corpo é como a parte de trás de seu corpo.
Onde está sua frente?
Meu irmão gêmeo tem as frentes; eu nasci com duas costas… era sempre eu quem levava as surras… mas por que amargar o passado?
É uma boa filosofia.
Minha melhor disciplina.
… Diga-me, as coisas estão se endireitando?
Até agora, tudo bem…

How Things Are Turning Out
for Michael Cuddihy

A man registers some pigeons at a hotel. They fly up to their rooms. He’s not sure that his mind doesn’t fly with them . . .
He asks the desk clerk if everything seems all right. He would like to know if the smoke coming out of his cigarette is real, or something the management has had painted on the wall?
The desk clerk has turned his back and is sorting the mail.
Sir . . . , says the man.
But the desk clerk continues to arrange the mail.
Sir, would you look this way for a moment?
I can hear you, I’m just sorting the mail.
I wanted you to notice the smoke of my cigarette . . . Since the pigeons flew up to their rooms . . . You never know about the future, I mean how things will finally turn out . . . Please, could you check my smoke . . . ?
When the desk clerk turns his face is covered with hair, like the back of his head; and the front of his body is like the back of his body.
Where is your front?
My twin brother has the fronts; I was born with two backs . . . I always got the spankings . . . But why regret the past?
That’s good philosophy . . .
My best subject.
. . . Tell me, is everything turning out all right?
So far so good . . .

 

Traduções de Ismar Tirelli Neto

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Quando a tradução juramentada é necessária?

Tradução juramentada é aquela realizada por um tradutor público, concursado e subordinado à Junta Comercial de seu estado.

Em geral, órgãos e repartições governamentais exigem a tradução juramentada de documentos em língua estrangeira. Se o texto for transposto para outro idioma por um profissional devidamente habilitado e autorizado pelo estado, a autenticidade do documento não precisará ser verificada por outros órgãos para fins de comprovação legal.

Entretanto, algumas empresas particulares, como estabelecimentos de ensino, também podem solicitar tradução juramentada: basta que documentos em língua estrangeira tenham que ser apresentados à Justiça ou protocolados em qualquer cartório para que o trabalho do Tradutor Público e Intérprete Comercial se mostre necessário.

De acordo com informação disponibilizada pelo SINTRA – Sindicato Nacional dos Tradutores –, os documentos que mais comumente exigem tradução juramentada são atas, carteiras de habilitação, certidões de nascimento, casamento e óbito, documentos escolares (certificados de 1º e 2º Graus, diplomas universitários e históricos escolares), certificados de origem, contratos, autos de processos judiciais, documentos de embarcações estrangeiras, manifestos, passaporte, procurações, sentenças e testamentos.

Quanto aos valores praticados (os chamados “emolumentos”), a Junta Comercial de cada estado tem liberdade para definir sua própria tabela e os tradutores devem segui-la à risca, em conformidade com as deliberações do Estado.

As traduções são cobradas por lauda: em algumas localidades, a lauda juramentada é definida como o conjunto de 1.000 caracteres sem espaços; em outros, como um total de 1.250 com espaços. Os valores, que podem ser verificados no site e na própria Junta Comercial, serão outros caso haja necessidade de urgência na entrega da tradução.

Na hora de decidir entre uma tradução convencional e uma juramentada, vale sempre consultar a instituição que está solicitando os documentos: a economia pode ser grande!

Caso a tradução juramentada seja a opção adequada para você, você poderá encontrar um profissional nesta lista de tradutores juramentados filiados ao SINTRA.

Qualquer dúvida, entre em contato com a equipe da Ó Editorial através do e-mail atendimento@oeditorial.com.br.

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O papel da localização no trabalho de um tradutor

Bem-vindos ao blog da Ó Editorial!

A princípio, atualizaremos este espaço a cada 15 dias. No que diz respeito aos temas, você encontrará aqui discussões de ordem prática que interessarão sobretudo a outros profissionais do texto, posts sobre literatura, cinema e outras artes, informações sobre tradução e, claro, as novidades da Ó.

Para começar, trataremos brevemente da situação atual do mercado da tradução no que diz respeito a dois conceitos: localização e globalização.

Em qualquer área do conhecimento, é notável uma tendência de uniformização das informações em nível global – sobretudo nos contextos industriais e comerciais. Com esse movimento, obtém-se uma circulação mais efetiva e precisa dos dados relevantes para a atuação desses segmentos profissionais.

Para que dados ou produtos submetidos à globalização alcancem outras culturas de maneira satisfatória, entretanto, é fundamental que sejam submetidos aos processos de localização, que são, em suma, adaptações pelas quais os itens passam para se adequarem às especificidades do público ao qual se destinam. Essas adequações são feitas a partir de considerações sobre os possíveis públicos-alvo e se deixam notar de maneira mais clara no trato com softwares, jogos de videogame e websites.

Na hora da tradução, por exemplo, não devem ser levados em conta apenas a transposição de um idioma a outro e aspectos linguísticos referentes ao país ou região ao qual o produto será adaptado. Outras especificidades dos possíveis consumidores – como faixa etária e grupos sociais e étnicos – mostram-se igualmente importantes. Um bom exemplo é a opção, no jogo Grand Theft Auto V, de traduzir, na versão brasileira, O.G. (Original Gangster) por Vida Loka – com K mesmo, o que faz todo sentido no contexto representado no jogo.

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O conteúdo textual de websites também pode ser modificado no decorrer dos processos de localização. É frequente que metáforas e exemplos que funcionem melhor na cultura-alvo substituam aqueles de que se compunham os textos originais, por exemplo.

Além da dimensão idiomática, outros fatores fazem parte do escopo da localização. Entre eles:

– adaptação dos produtos originais às normas e regulamentações vigentes na localidade em que estes serão implementados;

– adequação de unidades monetárias e de medida;

– modificação de conteúdo de acordo com o gosto e as necessidades do público-alvo – dados que serão levantados pelos institutos responsáveis pela localização;

– adaptação do design e do layout ao texto traduzido;

– emprego dos formatos adequados de data, hora, endereços e números de telefone.

São muitos os exemplos de êxito e de fracasso justificados pelo modo de execução da localização. Trata-se, assim, de um trabalho que demanda pesquisa e atualização constantes e desapego da noção de que toda tradução deva ser realizada de forma estritamente literal para ser adequada. Por trás dessa tarefa tão contraditória – atender ao máximo as solicitações locais para viabilizar a globalização de produtos –, é possível vislumbrar a radicalização dos discursos que questionam e desconstroem a ideia de fidelidade no âmbito da tradução.

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