December 2017

“A guerra de inverno no Tibete”, Friedrich Dürrenmatt

Para o leitor brasileiro, o nome de Friedrich Dürrenmatt é geralmente associado à sua obra dramática (Os físicos, A visita da velha senhora) e a seus romances policiais (A promessa, O juiz e seu carrasco). No entanto, o escritor dedicou-se também à ficção científica, defendendo que a aplicação na literatura de métodos análogos aos das hipóteses matemáticas – a criação de universos não realistas que possibilitariam a verificação de ligações causais de fatos – seria um modo privilegiado de explorar a realidade.

Os traços do gênero que podemos identificar ao nos depararmos com a artificialidade do corpo de Claire Zachanassian em A visita da velha senhora, ou com as questões morais em torno das descobertas da física presentes em Os físicos, desenvolvem-se por completo em A guerra de inverno no Tibete. A integração de elementos mecânicos ao corpo do protagonista, um veterano que passa a atuar como mercenário, possibilita não apenas que ele continue a proteger-se do inimigo no subsolo que habita, pronto para o combate, mas também que registre para a posteridade sua história pessoal e as informações que julga válido preservar referentes à nossa sociedade.

Publicado originalmente em 1981 e traduzido para o português pela primeira vez por Tassia Kleine, com lançamento recente pela Ó Editorial (2017), o texto assume em muitos momentos a forma de ensaio para a exposição da imaginação científica, dialogando com questões políticas e sociais contemporâneas ao delinear um futuro distópico.

À primeira vista, é curioso que um texto com tais características seja o escolhido para a abertura de Stoffe, volume marcado sobretudo pelo tom autobiográfico. No entanto, ao levarmos em conta as imagens da devastação da Suíça da juventude do autor, e considerando como a eclosão de uma nova guerra o tocaria pessoalmente – a ele, que tinha 24 anos à ocasião dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e que foi revisor de Brighter than Thousand Suns: A Personal History of the Atomic Scientists (livro lançado em 1956 que discorria sobre o projeto Manhattan) –, parece-nos que a novela não poderia estar mais bem ambientada.

A estrutura narrativa de A guerra de inverno no Tibete evoca ainda certas reflexões do escritor em torno do fazer artístico. Referindo-se à sua atuação como pintor, Dürrenmatt menciona, em entrevista concedida ao canal suíço SRF, em 1978, que pode pintar de modo ingênuo, mas não pensa de modo ingênuo. A colocação é seguida de uma aproximação entre seus procedimentos perante a literatura e as artes plásticas. Neste sentido, e considerando-se ainda o jogo identitário a que está submetido o protagonista, pode-se muito bem pensar na figura do mercenário, com ferramentas grosseiras que contrastam com seu histórico acadêmico, como um refúgio último da consciência do autor acerca de suas próprias limitações – sobretudo ao aventurar-se por campos tão díspares do conhecimento. Adquire nitidez, aqui, a consciência que perpassa as artes moderna e contemporânea, sem compromisso com o sagrado, com o esgotamento temático, com verdades unívocas ou com a dicção realista.

Confira, abaixo, a primeira parte do livro, que pode ser adquirido por R$ 37,00 (+ frete) pelo e-mail atendimento@oeditorial.com.br e, em breve, pela Amazon.com!

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Eu sou mercenário e me orgulho de sê-lo. Luto contra o inimigo, não apenas em nome da Administração, mas também na condição de órgão executor — ainda que modesto — de sua missão, quer dizer, da parte de sua missão que a obriga a lutar contra seus inimigos, afinal ela está aí não só para ajudar o cidadão, mas também para protegê-lo. Luto na Guerra de Inverno no Tibete. Guerra de inverno porque nas encostas de Chomolungma, Cho Oyo, Makalu e Manaslu é sempre inverno. Combatemos o inimigo em alturas fantásticas, em geleiras e encostas íngremes, em taludes, fissuras e sob saliências, em um labirinto de trincheiras e bunkers, e outra vez sob a luz ofuscante do sol que nos cega. E a luta fica ainda mais difícil porque amigo e inimigo vestem os mesmos uniformes brancos. Esta guerra é um corpo a corpo cruel e incontrolável. O frio nos cumes e à beira de precipícios das montanhas de oito mil metros de altura é desumano, é de congelar nariz e orelhas. O exército mercenário da Administração é composto por todas as raças da Terra: um negro gigantesco do Congo luta ao lado de um malaio, um escandinavo loiro ao lado de um aborígene australiano, e não são apenas ex-soldados que lutam, mas também membros de antigas organizações clandestinas, terroristas de todas as ideologias bem como assassinos de aluguel, mafiosos e infratores ordinários. Com o inimigo também é assim. Se não estamos em serviço, ficamos escondidos em buracos no gelo e em caminhos escavados em rochas e poços, que se ligam uns aos outros e formam veios intrincados nos montes imponentes, de modo que também neles os grupos inimigos se deparam uns com os outros e se massacram. Em nenhum lugar reina a segurança. Nem sequer no bordel aos pés do Kanchenjunga, o “cinco tesouros das neves”, com prostitutas de todos os lugares do mundo. O inimigo também frequenta o estabelecimento rudimentar: os oficiais de puteiro dos dois lados entraram em acordo. Não repreendo a Administração: o coito é uma necessidade difícil de controlar. Só que alguns dos meus camaradas já foram apunhalados quando estavam em cima de uma puta, por exemplo o meu comandante, que já tinha sido meu comandante na última Guerra Mundial e naquela época preferia os puteiros de soldados aos bordéis de oficiais. Ainda me lembro muito bem de como o reencontrei.

Há vinte, trinta anos — quem ainda conta o tempo? — apresentei-me com um documento de identificação da Administração em uma pequena cidade nepalesa. Uma oficial do exército me recebeu e acabou comigo, por assim dizer. Estava esgotado como um velho trêmulo quando ela destrancou uma porta de ferro enferrujada e caiu em cima mais uma vez. Tudo aconteceu em um quarto vazio, um colchão encostado na parede, no chão o uniforme de oficial da mulher e o que restava de meus trapos de civil espalhados em volta; a porta estava bem aberta, pirralhos por tudo. Arranhado daquele jeito, e irritado com a criançada zombeteira, passei por cima do poderoso corpo nu daquela mulher e cambaleei porta afora, sem notar que atrás havia uma escada íngreme que levava para baixo. Despenquei, rolei, aterrissei em um chão de cimento e lá fiquei, sangrando, não desmaiado, mas feliz por estar deitado. Então olhei com cautela ao meu redor. Encontrava-me em um quarto retangular. Na parede estavam pendurados uniformes brancos, submetralhadoras e capacetes de aço revestidos por uma substância branca. Atrás de uma escrivaninha estava sentado um mercenário de idade indeterminável, com um rosto que parecia ter sido modelado em argila, a boca sem dentes. Estava de uniforme branco e usava um capacete como aqueles pendurados na parede. Na escrivaninha jazia uma submetralhadora ao lado de uma pilha de revistas pornográficas que o mercenário folheava. Finalmente me notou: “Então, aí está ele, o novato”, disse, “acabado, como tem que ser”. Abriu uma gaveta, retirou um formulário, tornou a fechá-la, devagar, com cerimônia; usando uma navalha, apontou com dificuldade um toco de lápis, cortou-se, praguejou; enfim conseguiu escrever, manchando o formulário com sangue. “De pé”, disse. Levantei-me. Estava com frio. Só então me dei conta de que estava nu. Meu nariz e mãos estavam esfolados, minha testa sangrava. “Seu número é FD 256323”, disse, sem perguntar meu nome. “Acredita em Deus?” “Não”, disse eu. “Acredita em uma alma imortal?” perguntou. “Não”, respondi. “Também não é obrigatório”, disse, “só é um um pouco esquisito quando se acredita nesse tipo de coisa. Acredita em um inimigo?” — “Sim”, falei. “Veja só”, disse, “isso é obrigatório. Vista um uniforme, pegue um capacete e uma metralhadora. Estão carregadas.” Obedeci. Fechou o formulário com a mesma cerimônia e se levantou. “Sabe usar uma submetralhadora?”, perguntou. “Pergunta idiota”, respondi. “Bom”, disse, “nem todos são macacos velhos como você, Vinte e três.” “Como assim Vinte e três?” “Porque o seu número termina com vinte e três”, disse, pegando sua submetralhadora da escrivaninha e abrindo um portão de madeira baixo e meio deteriorado. Segui-o, mancando. Entramos em um túnel estreito e molhado. Estava cavado em rocha nua e era mal iluminado por pequenas lâmpadas elétricas vermelhas cuja fiação pendia solta pelas paredes. Ouvia-se o rugido de uma cachoeira em algum lugar. Em algum lugar, houve disparos, depois uma explosão surda. O mercenário permaneceu parado. “Se alguém chegar perto, apenas atire”, disse, “pode ser um inimigo, e se não for não tem problema.” O túnel parecia descer, mas eu não tinha certeza, já que vez ou outra tínhamos que escalar, tão íngreme era a subida, para depois descermos de novo, com a ajuda de cordas, até profundezas indeterminadas. Ora o veio de túneis e poços se ampliava, avançávamos por sistemas complexos de elevadores, ora tudo era de uma primitividade indizível, como se construído em tempos imemoriais, próximo de um desabamento: é quase impossível fazer uma representação “geográfica” do labirinto em que nós, mercenários, vivemos — mesmo um mapa tosco, aproximativo. Minhas mãos sangravam muito. Dormimos por algumas horas em uma caverna, escondendo-nos como animais. O labirinto parecia se tornar mais simples. O túnel seguia estreito, sem que pudéssemos dizer em que direção. Às vezes caminhávamos quilômetros por águas geladas que chegavam até nossos joelhos. Nosso túnel se ramificava em outros à direita e à esquerda. Havia goteiras por toda parte, ainda assim por vezes reinava um silêncio mortal, em que apenas nossos passos podiam ser ouvidos. De repente o mercenário começou a avançar com cautela, submetralhadora engatilhada, e na boca de um outro túnel ouvi assobios passando por cima da cabeça: voltara à Terceira Guerra Mundial. Corremos agachados até uma espécie de escada em espiral de madeira apodrecida, a partir da qual o mercenário disparou sem motivo nenhum — não se via ninguém — em direção ao túnel até esvaziar sua submetralhadora. Após uma breve descida, alcançamos uma caverna um pouco mais iluminada, para a qual conduziam outras escadas em espiral, algumas vindas de cima, como a que usamos para descer, outras de baixo. Da caverna, um túnel mais largo levava à porta de um elevador. O mercenário apertou o botão. Esperamos. Uns quinze minutos. “Quando sairmos”, disse o mercenário, “jogue rápido sua metralhadora para o chão e levante bem as mãos.” A porta se abriu, entramos no elevador. Era pequeno e estreito e tinha um revestimento curioso, um papel de parede gasto de brocado bordô. Não sei mais se o elevador foi para cima ou para baixo. Tinha duas portas. Só reparei nisso uns quinze minutos depois, quando a porta às minhas costas se abriu.

 

 

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