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‘Ellen West”, Frank Bidart

 

 

Frank Bidart é um poeta americano nascido a 1939. Celebrado por uma obra poética que se vem construindo desde meados da década de 1970, Bidart ganha reconhecimento nos meios literários por textos como Ellen West – denso poema narrativo no qual o monólogo de uma mulher que sofre de anorexia é seguidamente jugulado por pareceres médicos. Os registros atritantes, a disposição fragmentária e a temática devastadora do texto – aliados a uma certa frieza verificável tanto no tom quanto na própria disposição progressiva, aparentemente imparável dos cacos de texto rumo a um desfecho aterrador – fazem de Ellen West uma experiência de assombrosa densidade emocional.

De Bidart, não conhecemos nenhuma tradução para o português. A íntegra do poema – publicado originalmente no segundo livro do autor, The Book of the Body – pode ser acessada aqui.

 

Ellen West

 

“Amo doces, –

……………. paraíso

seria morrer num leito de sorvete de baunilha…

 

Mas meu verdadeiro eu

é magro, todo perfil

 

e gestos gráceis, o tipo da menina

loura elegante cujo

……………………….corpo é a imagem da própria alma.

 

– Meus médicos dizem que preciso desistir

deste ideal;

………………..mas eu

NÃO VOU … não posso.

 

Apenas para meu marido não sou meramente um “caso”.

 

Mas ele é um tolo. Desposou

carne tomando-a por esposa.

 

 

 

Por que sou menina?

 

Pergunto a meus médicos, e eles dizem

que não sabem, que trata-se apenas de um “dado incontornável”.

 

Mas são tantas

as implicações -;

…………………….e às vezes

chego mesmo a me sentir como uma menina.

 

 

 

Agora, no início do trigésimo segundo ano de vida de Ellen, sua condição física deteriorou-se ainda mais. Seu uso de laxantes sofre um aumento desmedido. A cada noite ela ingere de sessenta a setenta cápsulas de um determinado laxante, o que acarreta em vômitos torturantes à noite e diarreia violenta pelas manhãs, frequentemente acompanhadas de debilidade cardíaca. Ela emagreceu a ponto de tornar-se esquelética, e pesa apenas 46 quilos.

 

 

 

Há mais ou menos cinco anos eu estava num restaurante

comendo sozinha

…………………….com um livro. Eu não

era casada, e isto era costume meu…

 

– Eu recusava convites

para jantar, para poder comer sozinha;

 

Eu me permitia duas fatias de pão com

manteiga, no início, e três bolas

de sorvete de baunilha, no final, –

 

………………………………………….sentada ali sozinha

com um livro, tanto dentro como

fora do livro, atendida, observando

ociosa as pessoas,-

 

…………………………………quando um rapaz atraente

e uma mulher, ambos vestidos com elegância,

sentaram-se ao meu lado.

………………………………….Ela era linda –;

 

traços bem desenhados, angulosos, boa

estrutura óssea -;

…………………..se tirasse a maquiagem

bem na sua frente e ficasse esfregando creme

pela pele, continuaria sendo

bela –

………ainda mais bela.

 

E ele, –

…………………Não conseguia me lembrar de quando vira

homem tão atraente. Não sabia por quê. Ele era quase

 

uma versão masculina

…………………………….dela, –

 

Tive a súbita, louca ideia

de me tornar sua amante …

 

– Eram casados?

…………………..eram amantes?

 

Não usavam alianças.

 

Portavam-se de forma circunspecta. Discutiam

política. Não se tocavam…

 

– Como poderia descobrir?

 

…………………………….Então, quando chegou

a entrada, reparei em como

 

cada um espichava o garfo para que o outro

 

pudesse provar o que tinha pedido…

 

 

…………………………………..Fizeram isso

seguidamente, com olhares satisfeitos, sorrisos

indulgentes, a cada prato,

………………………….mais de uma vez a cada prato-;

demais para meros amigos…

 

– O comportamento deles me deixou nauseada;

 

a maneira alegre como

cada um colocava a comida que o outro oferecera dentro da própria boca –;

 

Compreendi o que eles eram. Compreendi que dormiam juntos.

 

Uma imensa depressão me tomou de assalto…

 

– Eu sabia que jamais conseguiria

com tamanha facilidade permitir que outra pessoa pusesse comida na minha boca:

 

e com felicidade colocar eu própria comida na boca de um outro-;

 

sabia que para me tornar uma esposa teria de abdicar do meu ideal.

 

 

 

Mesmo quando era pequena,

vi que o processo “natural” do envelhecimento

 

consiste em nosso tronco engrossar-

em nossa pele cobrir-se de manchas;

 

como aconteceu com minha mãe.

E com a mãe dela.

……………………….Eu abominava a “Natureza”.

 

Aos doze anos, panquecas tornaram-se

o mais terrível pensamento do mundo…

 

Derrotarei a “Natureza”.

 

No hospital, quando

me pesam, levo pesos costurados secretamente a meu cinto.

 

 

 

16 de Janeiro. Permitiu-se à paciente fazer as refeições no próprio quarto, mas ela se apresenta prontamente, junto a seu marido, para o café da tarde. Anteriormente ela havia objetado a prática com firmeza, alegando que não comia, apenas devorava como um animal selvagem. Isto, ela demonstrou com o máximo realismo… Seus exames não evidenciaram nada de preocupante. As glândulas salivares apresentam notável inchaço em ambos os lados.

21 de Janeiro. Tem lido o “Fausto” novamente. Em seu diário, escreve que a arte é a “permeabilidade mútua” entre o “mundo do corpo” e o “mundo do espírito”. Diz que seus próprios poemas são “poemas de hospital – fracos – desprovidos de engenho ou perseverança; logrando apenas um suave bater de asas”.

8 de Fevereiro. Agitação, rapidamente sob controle. Vinculou-se a uma paciente muito magra e elegante. Componente homoerótico notavelmente evidente.

15 de Fevereiro. Vexação, tormento. Diz que sua mente a obriga a pensar constantemente em comer. Sente-se humilhada por isso. Parou completamente, pela primeira vez em dez anos, de escrever poemas.

 

A Callas é minha cantora favorita, mas eu só a vi

uma vez-;

 

Nunca esqueci aquela noite…

 

– Foi em Tosca, de há muito ela já havia

perdido peso, sua vez

estivera se deteriorando

……………………………….por anos, a metade do que era…

 

Quando sua carreira começou, naturalmente, ela era gorda,

 

enorme-; nas fotografias de juventude,

por vezes quase não a reconheço…

 

 

Também a voz era enorme –

saudável; robusta; sutil; mas capaz de

efeitos rasteiros, até mesmo vulgares,

………………………………………quase que provindos

de incontida alegria, de uma demasia de saúde…

 

Mas logo ela sentiu que precisava perder peso,-

que tudo que estava tentando expressar

 

era obliterado por seu corpo,

soterrado pela carne -;

………………………..abruptamente, dentro

de quatro meses, ela perdeu quase trinta quilos…

 

– Em Milão, correu à boca pequena que Callas

tinha engolido uma solitária.

 

Mas é claro que ela não tinha feito isso.

 

…………………………………………………A solitária

era a alma dela…

 

– E como esta alma, intransigente,

insaciável,

………………deve ter amado comer a carne à volta de seus ossos,

 

dando a ver esta criatura

frágil; soberba; extraordinariamente mercurial…

 

-Irresistivelmente, no entanto, nada

parou ali; a imensa voz

 

começou também a mudar: a princípio, simplesmente

diminuiu de volume, de porte,

……………………….depois as notas mais agudas tornaram-se

estridentes, duvidosas – por fim,

tornou-se comum se ausentarem de todo…

 

-Ninguém sabe o por quê. Talvez sua mente,

esfaimada, ainda insaciável, tenha sentido

 

que batalhar com os farrapos de uma voz

 

tornaria mais sutil a sua arte, mais refinada,

mais capaz de exprimir humilhação,

raiva, atraiçoamento…

 

– Talvez o contrário. Talvez seu espírito

abominasse a luta infinita

 

para incorporar a si mesmo, manifestar a si mesmo, em um palco cuja

 

mecânica, cujos sufocantes costumes

pareciam expressamente designados à aniquilação do espírito…

 

-Sei que na Tosca, no segundo ato,

quando, humilhada, atormentada por Scarpia,

ela cantou Vissi d’arte

………………………..– “Vivi pela arte” –

 

e, atormentada e atônita, ela pergunta ao fim

com uma voz tentando

…………………………….a custo alcançar as notas,

 

“A arte recompensou-me ASSIM?”

 

…………………………………..Senti como se estivesse assistindo

a uma autobiografia –

……………………………..uma arte; engenho;

virtuosismo

 

a milhas de distância do atletismo de uma soprano

qualquer,-

………………….o sonho comum do músico

de um virtuosismo sem conteúdo…

– Me pergunto como ela deve se sentir agora

ouvindo suas próprias gravações.

 

Pois já começaram, passados poucos anos,

a parecer defasadas…

 

O que quer que seja que exprimam

fazem-no por intermédio de um estilo ultrapassado

em década e meia-;

………………………..estilo que ela ajudou a criar…

 

– Ela deve saber que agora

não trinaria exatamente daquela

maneira,-

……………………que todo o som, atmosfera,

dramaturgia de suas gravações

 

tornaram-se vagamente coisas do passado…

 

– Será amargo? Será que sua alma

lhe diz

 

que ela fora uma idiota por pensar

que qualquer coisa

……………………material poderia satisfazer plenamente?…

 

– Talvez ela diga: A única maneira

de escapar

à História dos Estilos

 

é não ter um corpo.

 

 

 

Quando abro meus olhos pela manhã, meu grande

mistério

…………..está postado logo adiante…

 

Sei que sou inteligente; portanto

 

a incapacidade de não temer a comida

dia e noite; esta fome infinita

dez minutos depois de comer…

…………………………………………um medo

infantil de comer; fome que não pode ter uma causa,-

 

metade da minha mente diz que isto tudo

é degradante…

 

…………………….Pão

por dias a fio

escorraça do meu cérebro todo pensamento real…

 

– Então eu penso, Não. O ideal de ser magra

 

encobre o ideal

de não ter um corpo -;

……………………………..o que NÃO é trivial…

 

Este desejo parece agora tanto um “dado incontornável” da minha existência

 

quanto o intolerável

fato de que tenho a pele morena e ossos largos;

e que cheguei a pesar

84 quilos…

 

– Mas então eu penso, Não. Isso é simples demais,-

 

sem um corpo, quem poderá jamais

conhecer a si próprio?

………………………………….Apenas mediante

a ação; a escolha; a rejeição; foi que

me construí –

…………………………………descobri quem e o que Ellen pode ser…

 

– E novamente penso, NÃO. Este eu é anterior

a nome; gênero; ação;

moda;

……………….À PRÓPRIA MATÉRIA, —

 

… tentar saciar a minha fome com COMIDA

é como tentar matar a sede

………………………………………..com tinta.

 

 

 

30 de Março. Resultado da consulta: ambos os cavalheiros concordam completamente com meu prognóstico e duvidam que uma internação possa ser útil do ponto de vista terapêutico ainda mais enfaticamente que eu. Todos os três estamos concordes em não se tratar de um caso de neurose obsessiva nem tampouco de psicose maníaco-depressiva, e que nenhuma terapia definitivamente confiável é possível. Resolvemos, portanto, acatar o pedido de dispensa da paciente.

 

 

 

A viagem de trem ontem

foi muito pior do que eu esperava…

 

……………………………………………………..No nosso compartimento

achavam-se pessoas comuns; um estudante;

uma moça; seu filho; —

 

tinham corpos comuns, rostos agradáveis;

……………………………………………..mas eu pensei

que estava cercada por criaturas

 

tomadas de um desejo patético,

desesperado, de não ser o que eram:-

 

o estudante era baixo

e alongava o corpo como se o estivesse forçando

a ser mais alto -;

 

a mulher mostrava muito as gengivas ao sorrir,

e com frequência erguia a mão

para escondê-las-;

 

a criança

parecia chorar apenas por ser

pequena; um anão, desamparado…

 

– Eu estava com fome. Havia insistido para que meu marido

não trouxesse comida…

 

Depois de mais ou menos trinta minutos, a mulher

descascou uma laranja

 

para serenar a criança. Ela colocou um bocado

dentro de sua boca-;

…………………………..imediatamente a criança cuspiu.

 

O pedaço caiu no chão.

 

– Ela o empurrou com o pé, através da poeira,

na minha direção,

muitos centímetros.

 

Meu marido me viu fitando

o pedaço de laranja…

 

– Não me movi; como eu queria

me lançar sobre ele, e

………………………………como se fosse invisível

 

metê-lo na boca -;

 

meu corpo

enrijeceu. Enquanto o mirava,

pude vê-lo mirando

 

 

a mim, –

…….de seguida olhou para o estudante -; para a mulher -; depois

de volta para mim…

 

Não me movi.

 

– Por fim, ele se agachou e

casualmente

……………….jogou o pedaço pela janela.

 

Ele desviou o olhar

 

– Levantei-me para sair do compartimento, então

vi o rosto dele,-

 

seus olhos

estavam vermelhos;

…………………………….e eu vi

 

estou convicta de que vi

 

decepção.

 

No terceiro dia de sua volta para casa ela se mostra como que transformada. No desjejum, come manteiga e açúcar, ao meio-dia come tanto que – pela primeira vez em treze anos – ela está satisfeita e, de fato, empanturrada. No café da tarde, ela come bombas de chocolate e ovos de Páscoa. Ela dá um passeio com o marido, lê poemas, escuta discos, encontra-se num estado positivamente festivo, e todo o peso parece tê-la abandonado. Ela escreve cartas, sendo a última dirigida àquela paciente daqui com quem formara tão grande vínculo. À noite, ela ingere uma dose letal de veneno e na manhã seguinte está morta. “Tinha um aspecto como nunca tivera em vida – calma, feliz, apaziguada”.

 

Meu bem. – Lembro-me como

com dezoito anos,

…………………………….em caminhadas com amigos, quando

eles descansavam, sentando-se para conversar ou contar piadas,

 

eu andava à volta

deles, com medo de prosseguir sozinha,

 

e no entanto receosa de descansar

sem ainda ter me tornado verdadeiramente magra.

 

Você e, sim, meu marido,-

você e ele

 

conseguiram aos poucos me inserir no círculo;

me forçaram a sentar enfim no chão.

 

Sou-lhes grata.

 

Mas algo em mim o recusa.

 

– Como desejei

transigir, matar isto que recusa,-

 

mas cada transigência, cada tentativa

de envenenar um ideal

o qual frequentemente parecera a mim mesma irreal e estéril,

 

aumenta minha fome.

 

Sou uma aleijada. Decepciono vocês.

 

Como – com raiva ou

felicidade – receberá você

 

a notícia que pode bem lhe

chegar antes desta carta?

 

……………………………………………………Tua Ellen

 

Nota: Este poema se baseia em “Der Fall Ellen West”, de Ludwig Binswanger, traduzido por Werner M. Mendel e Joseph Lyons (“Existence”, Basic Books, 1958). É Binswanger quem nomeia a paciente “Ellen West”.

 

Tradução de Ismar Tirelli Neto