Blog da Œ

“Desejos”, Grace Paley

“Eu queria escrever sobre mulheres e crianças,” afirma Grace Paley em entrevista a Paris Review, “mas posterguei por alguns anos porque pensei, As pessoas vão achar isso trivial, nada. Depois pensei, É o que eu tenho que escrever. É o que eu quero ler. E não vejo muito disso por aí.”

O ímpeto de escrever politicamente sobre a vida doméstica, explicitando-lhe dimensões e nuanças até então pouco representadas na ficção norte-americana, perpassa quase toda a obra de Paley, escritora e ativista política nascida em 1922 e falecida em 2007. Conhecida sobretudo pelos três volumes de contos que lançou em vida – The Little Disturbances of Men, Enormous Changes at the Last Minute e Later the Same Day -, a autora também escreveu poemas e lecionou ao longo de décadas, além de ter militado ativamente na causa pacifista e na causa feminista.

No Brasil, foi traduzida apenas uma vez (“Nas Próximas Horas [Later the Same Day]”, Ed. Paz Terra). Em Portugal, a Relógio D’Água publica em 1987 “Pequenas Contrariedades da Existência”, tradução de seu volume de estreia, The Little Disturbances of Man.

O conto abaixo, “Wants”, abre seu segundo apanhado de contos.

*

DESEJOS

Vi meu ex-marido na rua. Eu estava sentada na escada da biblioteca nova.

Olá, minha vida, eu disse. Fôramos casados por vinte e sete anos em algum momento, portanto me senti justificada.

Ele disse, Quê? Que vida? Vida minha que não é.

Eu disse, Certo. Não discuto quando há real desacordo. Levantei e entrei na Biblioteca para ver quanto eu lhes devia.

A bibliotecária disse $ 32 certinho e você nos deve há dezoito anos. Não neguei coisa alguma. Porque eu não entendo como o tempo passa. Os livros estiveram mesmo comigo. Frequentemente pensei neles. A biblioteca fica só a dois quarteirões de distância.

Meu ex-marido me acompanhou até o balcão de Devolução. Ele interrompeu a bibliotecária, que tinha mais a dizer. De várias maneiras, disse ele, quando olho para trás, atribuo a dissolução de nosso casamento ao fato de você nunca ter convidado os Bertram para jantar.

É possível, eu disse. Mas, convenhamos, se você se recorda: em primeiro lugar, meu pai estava adoentado naquela sexta-feira, depois nasceram as crianças, depois eu tive aquelas reuniões nas noites de terça, depois estourou a guerra. Depois era como se já não os conhecêssemos. Mas você tem razão. Eu devia tê-los convidado para jantar.

Dei à bibliotecária um cheque no valor de 32 dólares. Imediatamente ela me teve confiança, esqueceu meu passado, limpou a ficha, exatamente o que outras burocracias municipais e/ou estatais se recusam a fazer.

Tomei de empréstimo os dois livros de Edith Wharton que eu acabara de devolver porque fazia muito que não os lia, e pareciam agora mais apropriados que nunca. Eram eles The House of Mirth e The Children, que é sobre como a vida nos Estados Unidos, em Nova York, mudou ao longo de vinte e sete anos cinquenta anos atrás.

Uma coisa boa que eu me lembro é o café da manhã, disse meu ex-marido. Fiquei surpresa. Nós só bebíamos café. Depois me lembrei que havia um buraco no fundo do armário da cozinha que dava para o apartamento vizinho. Lá, eles sempre comiam bacon defumado curado no açúcar. Isto nos dava uma impressão grandiosa do café da manhã, mas nunca ficávamos empanturrados e moles.

Isto quando nós éramos pobres, eu disse.

Quando foi que fomos ricos?, perguntou ele.

Ah, à medida que o tempo foi passando, que nossas responsabilidades aumentaram, nós não passamos necessidade. Você de fato tomou as devidas precauções financeiras, lembrei-lhe. As crianças iam para o acampamento quatro vezes por ano e metidas em ponchos decentes, com sacos de dormir e botas, como todos os outros. Tinham muito bom aspecto. Nossa casa era quente no inverno, e tínhamos bonitos travesseiros vermelhos e coisas.

Eu queria um veleiro, disse ele. Mas você não queria nada.

Não seja amargo, eu disse. Nunca é tarde.

Não, disse ele com muita amargura. Talvez eu compre um veleiro. Na verdade, acabo de dar entrada numa chalupa de dezoito pés. Estou folgado este ano e posso esperar coisa ainda melhor. Mas para você, é tarde demais. Você sempre não vai querer nada.

Ao longo dos vinte e sete anos ele tivera esse hábito de fazer um comentário mesquinho que, feito cabo de desentupimento, tinha a capacidade de ir descendo pela orelha, garganta abaixo, até atingir bem o meio do meu coração. Depois ele desaparecia, me deixando engasgada de equipamento. O que quero dizer é que me sentei na escada da Biblioteca e ele foi embora.

Folheei The House of Mirth, mas perdi o interesse. Senti-me extremamente acusada. Bem, é verdade, sou falta de demandas e requerimentos absolutos. Mas eu quero sim algo.

Quero, por exemplo, ser outra pessoa. Quero ser a mulher que devolve estes dois livros em duas semanas. Quero ser a cidadã eficaz que modifica o sistema educacional e se pronuncia junto ao Comitê Orçamentário acerca dos problemas deste querido centro urbano.

Eu havia prometido a meus filhos que acabaria com a guerra antes que eles crescessem.

Eu queria ter ficado casada para sempre com uma pessoa só, meu ex-marido ou meu atual. Ambos têm personalidade o suficiente para uma vida inteira, tempo que, feitas as contas, não é lá tão longo. Em uma só breve vida não se poderia exaurir as qualidades de nenhum dos dois, nem tampouco se embrenhar por debaixo da rocha de suas razões.

Hoje mesmo, pela manhã, fui à janela para olhar um pouco a rua e vi que os pequenos plátanos que a cidade plantara sonhadora pouco antes de nascerem as crianças haviam atingido, naquele dia, a flor da idade.

Pois bem! Decidi devolver aqueles dois livros na Biblioteca. O que prova que quando uma pessoa ou acontecimento surge para me chocar ou testar eu posso tomar as devidas atitudes, muito embora seja mais conhecida por meus comentários amistosos.

Tradução: Ismar Tirelli Neto

Revisão: Tassia Kleine

*