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Robert Glück, “Esquina da Sanchez com a Day”

Recentes debates sobre representatividade de gênero no mercado editorial brasileiro motivam-nos a colocar na roda, à guisa de contributo, este “Esquina da Sanchez com a Day”, narrativa de Robert Glück que abre seu livro Elements of a Coffee Service, publicado originalmente a 1981.

O texto fala por si só. Sendo, para desgáudio de muitos, empreitada literária e, portanto, humana, ele nos compele não só a estar à altura da pergunta “a quem falará?” como também a decidir, em última instância, se se trata ou não de um dilema falso. A narrativa de um homem perseguido por quatro brutamontes por ter ousado uma aproximação visual com alguém do mesmo sexo na rua (narrada por um sujeito que passava mais ou menos rotineiramente por este tipo de experiência, e talvez ainda passe) falará exclusivamente aos seus, aos que olham? aos que fogem? Falará exclusivamente aos aliados (e atentem para a quantidade assustadora de vezes que este termo imperdoavelmente militarista vem pululando pelos debates em torno do assunto; atentem nos que se valem de metáforas deste calibre em suas descrições da comunidade literária), os mesmos que seguem reforçando, por mais bem-intencionados que se pretendam, dinâmicas que, ao fim e ao cabo, só fazem assegurar ao patriarca heterossexual branco a autoridade de chancelar a existência do Outro, trazendo-a ao de cima, incorporando-a afinal a seu repertório de assuntos “universais”?

O partir do princípio de que a experiência homossexual – posto mais largo, de que a experiência minoritária – não se vem debruçando sobre si própria desde há muito nos acena duas possibilidades um bocado amargas: má-fé ou ignorância. Da parte de quem? Puramente do mercado editorial? É a hipótese da maioria. Mas vamos além. Não será o momento, afinal, de assumirmos frontalmente nossa parcela de responsabilidade na manutenção destas abomináveis engrenagens de “nenhumação” – não será produtivo e interessante para toda a comunidade declarar, alto e bom som, que nós somos, como escritores, tradutores etc., também o mercado editorial – e que, como membros, senão importantes, pelo menos pesados deste mercado (em verdade vos digo, amigos, nem só de editores vive o mercado editorial), podemos e devemos nos permitir gestos um pouco mais radicais e eficazes que meros dispositivos de cedência?

O fato de autores como Robert Glück, Dodie Bellamy, Bruce Boone, Dennis Cooper, Frank Bidart, Frank O’Hara, Kathy Acker, Quentin Crisp, Joe Orton e tantos outros não figurarem ainda nos catálogos de grandes editoras brasileiras – as mesmas grandes editoras que se apressam em publicar com ensurdecedora fanfarra qualquer calhamaço escrito por qualquer americano branco, contanto que ultrapasse a marca das quatrocentas páginas, afinal, há afetos olímpicos em jogo – pode sim ser interpretado como um projeto de silenciamento, um esfumaçamento intencional, um “trailing off” do discurso histórico que faz com que o público leitor brasileiro acabe tendo a leve impressão de que a experiência homoafetiva parou de refletir, organizar e articular a si própria com Tennessee Williams, Pasolini e Jean Genet. Isto está muito distante da realidade. Basta lembrar o ano em que Pier Paolo foi assassinado (e das ondas que andava fazendo na imprensa italiana de então). Basta dar-se conta de que tanto Genet quanto Williams morrem na década do “câncer gay”, golpe histórico cujo impacto ainda se faz sentir entre todos, homossexuais ou não. Basta lembrar que obras capitais a todo aquele que se reconheça minimamente interessado no estudo de vivências afetivas/sexuais desviantes, como o “Devassos no Paraíso” de João Silvério Trevisan ou “A Contestação Homossexual” de Guy Hocquenghem, são hoje em dia comercializados em caráter de “raridade” e vão cotados em sites especializados em livros esgotados a preços tão exorbitantes quanto R$ 400,00.

O enfrentamento é doloroso, naturalmente, mas é justamente disto que se trata, ao fim e ao cabo: dor e enfrentamento, atividade, constante negociação, modos de visibilidade que passem ao largo da sujeição e da usurpação. Boa literatura é coisa relativamente fácil de se fazer hoje em dia, quando se tem disciplina, tempo e acesso a uma que outra biblioteca interessante (sublinhe-se, por conta destas condições, o relativamente). Uma literatura tanto interessante quanto dotada de real densidade política – esta que, quando aparece, deve bater-se o tempo inteiro com o risco de ser repentinamente encurralada como “literatura de nicho” e prontamente apagada ou qualificada como “menor” quando é claramente tão universal quanto qualquer outra, e tantas (mas tantas) vezes superior em termos de qualidade – já não é feito tão usual ou visível, pelo menos no contexto do mercado editorial brasileiro atual.

Se o ficcionista brasileiro contemporâneo começa a ensaiar alguns passos rumo à vivência, digo, à contemplação do desvio, será mesmo o caso de agradecermos pela atenção, como se vivêssemos ainda as sujeições reinantes na primeira metade do século passado e seu vasto repertório de codificações, ou de nos demorarmos um pouco mais – e um pouco mais severamente – no que torna essa vivência interessante às vozes dominantes neste exato momento histórico? Se, em tese, já não precisamos de mediadores, por que precisamos ainda de mediadores? De que exatamente a homossexualidade se despe, o que ela entrega, de que se espolia ao ser incorporada a um universo ficcional que diligentemente a ignorou – salvo exceções – por tantas décadas? Que potência aflitiva ou desestabilizadora ela perde ao ser assimilada a qualquer discurso majoritário, e quem, em última análise, colhe os louros?

São estas as questões que pretendemos assuntar apresentando o texto a seguir, em que a diferença é tão claramente enunciada a ponto de enformar uma espécie de carta de intenção. A partir daquilo que o diferencia cotidianamente, Glück toma (estratégia poética por excelência) o partido da desnaturalização, optando por colocar diante do leitor a vivência do perigo e da perseguição — “when aren’t we being chased?” — como uma problemática real que demanda a atenção, os cuidados e o investimento moral de todos.

Isto, lembremos, há mais de 30 anos.

Que podemos fazer diante de pedido tão claro e contundente afora escutar, atentar e assegurar espaços para que estas vozes continuem ressoando com pujança e assertividade cada vez maiores, cada vez menos dependentes das atenções flutuantes de intermediários?

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robert_gluck

Robert Glück é um ficcionista, poeta, ensaísta e editor norte-americano conhecido por ter inaugurado, em companhia de Bruce Boone e diversos outros escritores atuantes em São Francisco em fins dos anos 1970, o movimento a que chamaram New Narrative. Ideado como reação ao programa vigente entre os poetas L=A=N=G=U=A=G=E, corrente identificada tanto por Glück como por Boone como excessivamente “straight male”, a New Narrative propunha o borramento de fronteiras entre conto, poesia, ensaio, memorialística, teoria, relato e “fofoca”. Glück vive e trabalha em São Francisco. Até o presente momento, nenhum de seus livros parece ter sido traduzido ao português.

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      ESQUINA DA SANCHEZ COM A DAY

 

            Certa manhã eu estava passeando com Lily ali pela esquina da 29ª com a Sanchez. Lily, cujo lema é “melhor prevenir do que remediar”, trotava não muito adiante, evitando Dobermans e dando alô aos pedestres, aceitando gravemente os seus elogios – seus cílios dourados e rabo extravagante. Uma picape Chevrolet virou a esquina bem na minha frente e eu provavelmente olhei fundo demais o sujeito no banco do carona, que tinha perfil vistoso. De repente eles começaram a gritar “viado” e “viado de merda”. Eu andava de bom humor e com um último resquício de efervescência levantei-lhes o dedo médio, coisa de que me arrependi instantaneamente porque a caminhonete freou com um barulho estridente e começou a manobrar para dar a volta. Eram quatro, estava rindo e gritando. Lily e eu demos o fora. Corremos pela Sanchez e viramos na esquina com a Day rentes à caminhonete. Um deles quase me acerta com uma lata de cerveja. Estavam rindo e guiando paralelamente a nós, mas cortamos a Day, saltamos uma mureta de arrimo e atravessamos uma cerca para ciclones por um buraco que eu já conhecia. A cerca envolvia um grande campo onde às vezes eu levava Lily para passear de noite, dando-lhe a oportunidade de circular sozinha um pouco e desfrutar dos úmidos cheiros de terra e plantas.

            Se eles não se separassem, então a vantagem era minha, já que o campo tinha entradas de ambos os lados. Postei-me no centro na grama cortada na cara luz do sol de São Francisco; a duas quadras, os sinos começaram a badalar rumo ao meio-dia, e eles jamais atacariam alguém em plena luz do dia, a não ser, é claro, que o fizessem. Você vai compreender o meu medo porque a televisão nos treinou para entender o medo de um homem que corre. Não esperava viaturas de polícia; atacar um homossexual não é delito tão claro quanto, digamos, roubar um pacote de queijo processado. O cheiro de grama cortada me lembrou a infância de minha mãe em Denver, porque ela vive dizendo que o cheiro a lembra disso. Ela passava lá os verões com minha tia-avó Charlotte, mulher de porte aristocrático que alimentava as crianças com tonéis de morangos com creme espesso e pão de padaria com grandes placas de manteiga. Isto antes dos dias do colesterol. Mas Charlotte também militava por uma alimentação saudável, arroz integral e nada de açúcar, o que demandava um bocado de independência há obra de uns cinquenta anos. Pois isso ela tinha de sobra. Lembro que, depois do funeral do tio Harry, alguém tocou a campainha e uma imensa cesta de frutas vindas de Denver foi entregue em mãos à minha mãe. O entregador disse, muito sóbrio: “A Sra. Isaacs faz absoluta questão de que você receba esta mensagem. Lave tudo antes de comer”. Na sequência, me lembrei da recente conversa que minha mãe teve ao telefone com Charlotte, que disse, “Você era uma menina tão bonita, você ainda é bonita?”. E minha mãe retrucou: “Charlotte, estou caminhando para os sessenta”. Minha mãe, que é, acima de todas as coisas, uma neta, uma filha, irmã, prima, sobrinha, esposa, mãe, cunhada, tia e avó. Até o momento o incidente não fora lá grande coisa e acontecera rápido, mas tinha aquele arrastado que precede a violência, então tentei me fortalecer na segurança de memórias familiares de infâncias e velhices.

            Por outro lado, tive muito tempo para recordar os dentes quebrados de Kevin e Bruce levando dura atrás de dura da polícia, e aquele Dia das Bruxas quando um homem berrando “boiola” perseguiu a mim e ao Ed com um cano de metal; e recordar também um conhecido, malemal um rosto, que um dia se sentou no chenile azul do sofá na minha cozinha. Ele foi assassinado por alguém que levara para casa, os vizinhos chegaram a ver o rosto do assassino durante a noite. Eis a conclusão lógica a este catálogo de traições: o assassino ataca quando você está nu e espera ternura e cada um, por acordo tácito, é anfitrião da vulnerabilidade do outro. O céu fechou, fazendo com que o verde, que estivera estourado, relaxasse até assumir plenamente sua cor. Relembrar estes acontecimentos não indicava necessariamente nada de urgente, não são isolados como os isolam a gramática de frase e parágrafo. A ameaça de violência física constitui uma parte do todo. A faculdade e minha educação literária concordavam em que eu deveria encarar a mim mesmo como uma conjunção aleatória de possibilidades vitais, decerto um ponto de vista luxuoso, invejável. Mas é difícil recorrer a este modelo quando quatro caras estão perseguindo você na rua. Que vida este modelo sustentará, e quando é que não estamos sendo perseguidos? A caminhonete fez a volta, parou na entrada da Rua 30, os homens saíram um por cima do outro. Esperei até que todos tivessem deixado a picape e saí pelo lado oposto com Lily caminhando junto às minhas pernas. Os olhos dela estavam dilatados; vibrava, totalmente deliciada pela fuga. Corremos até a Church, viramos a esquina e nos esgueiramos para dentro de um hortifruti.

            O mercadinho estava cheio de morangos e do cheiro dos morangos. Peguei duas cestas, certificando-me de que estavam vermelhos tanto em cima quanto em baixo, de que não estavam mofados, que tinham cheiro forte e saudável. Pessoas da Tailândia administravam a loja e, curiosamente, pareceu-me, tinham sintonizado a rádio na estação de música country. “Stand by Your Man”, de Tammy Wynette, a versão intimista de Willie Nelson para “Georgia on my Mind”, canção inteligente – e aquela dos Eagles que começa desenrolando a bonita palavra desperado. A estas, seguiu-se um tipo de canção que eu gosto muito, em que duas pessoas trocam versos de pergunta e resposta. Ela trabalhava no turno da manhã e seu marido, no turno da noite. Moravam em Pittsburgh e bem se poderia chamá-los os Pittsburgh Steelers porque, com aquelas vozes ressoantes de dor country tornando o chiste dimensional, roubavam amor e prazer sempre que tinham oportunidade. Você pode pensar que gosto da canção porque me identifico, mas isto seria um equívoco. O amor deles era um esconderijo infantil para chocolates, encafuado na diferença entre suas vidas e suas necessidades. É verdade que carrego na minha espinha, pulsos e joelhos o olhar de um homem com o qual me cruzei há três anos caminhando pela rua 18, e o choque que senti ao constatar que ele era inteiramente de meu agrado. Mas a diferença entre mim e esses queixumosos cantores é maior. A diferença: caminhando pela rua 29 um bando de homens numa caminhonete me gritou “viado”.

            A canção terminou e ouvi então uma freada estridente e depois: um dois três, pôu! – alguém se deu mal. Olhamos pela janela e vimos a caminhonete amarfanhada contra um poste. Um dos para-choques amassara-se como se fosse feito de papel-alumínio e eles ficaram ali parados, trajando sorrisos incertos, parecendo pequenos e desnorteados. Divisei o sujeito bonito e quando ele se voltou levava as mãos postas sobre uma barafunda de sangue na cara. Fiquei lá um minuto, gozando o puro prazer de inspirar e expirar. Resolvi fazer a cama, deitar fora uns papéis, ler os Cadernos do Cárcere do Gramsci, ter uma vida social ativa – não, célebre.

            É claro que isto seria um final satisfatório, ainda que frívolo. O que aconteceu de fato foi que os homens e a caminhonete sumiram, a não ser da minha imaginação. Tive sonhos raivosos. Mesmo nas minhas fantasias eróticas não consegui banir uma violência que retorcia a trama, afastando-a do prazer e aproximando-a do medo e da confusão. E o que resolvi foi isto: que eu guinaria a minha escrita a relatar-lhes incidentes como este na esquina da Sanchez com a Day, colocá-los diante de vocês como questões reais que precisam de respostas, e que estas questões, aliadas à minha compreensão e à minha prática, se tornariam mais enérgicas e precisas.

Tradução: Ismar Tirelli Neto

Revisão: Tassia Kleine e Tiago Macedo 

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