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Jean Rhys, "O Som do Rio"

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Nascida a 1890 na ilha caribenha de Domínica, a ficcionista Jean Rhys é mais conhecida por seu romance Vasto Mar de Sargaços (Wide Sargasso Sea), publicado em 1966, espécie de prequel ao clássico “Jane Eyre” em que a “louca do sótão”, primeira esposa do personagem principal, assume o protagonismo. Porém, a carreira literária de Rhys principia muito antes, em fins da década de 1920, após anos de deambulação e precariedade, tanto na Inglaterra quanto na França. Entre 1927 e 1939, Rhys publica boa quantidade de romances e coletâneas de contos, o mais dos casos tematizando as duras experiências vividas desde sua mudança para a Inglaterra, aos 16 anos. A secura e ironia de seu estilo, traços especialmente marcantes desta primeira produção, formam uma violenta aliança com a ternura mortificada que vota às figuras marginalizadas da sociedade. Seus relatos da “margem esquerda” oferecem ao leitor uma visão aterradora da alegre Paris dos anos 1920, infinitamente glamourizada por outros escritores que lá se fixaram ao longo da mesma década.

Além da tradução de Lea Viveiros de Castro para Vasto Mar de Sargaços, conhecemos de Jean Rhys apenas mais uma tradução ao português brasileiro – o romance “Bom-dia, Meia-Noite”, traduzido por Carmen Velasquez, dado à estampa em 1985 pela Art Editora (Coleção As Escritoras).

Oferecemos hoje uma tradução do conto “The Sound of the River”, publicado originalmente no volume Tigers Are Better-Looking, de 1968.


***

O Som do Rio

A lâmpada elétrica pendia de um curto cordão ao centro do teto, e como não havia luz suficiente para ler, ficaram deitados na cama, conversando. O ar noturno empurrava para fora as cortinas e entrava, suave e úmido, pela janela aberta.

“Mas do que você tem medo? Que quer dizer com ‘medo’?”

Ela disse, “Medo, como quando a gente quer engolir e não consegue”.

“O tempo inteiro?”

“Quase o tempo inteiro.”

“Francamente, meu bem. Você é de fato uma idiota”.

Quanto a isto não, ela pensou. Quanto a isto não.

“É só um humor,” disse ela. “Vai passar.”

“Você é tão inconsistente. Foi você que escolheu este lugar e quis vir para cá, pensei que o aprovasse”.

“Aprovo. Aprovo a várzea e a solidão e o arranjo todo, sobretudo a solidão. Gostaria apenas que parasse de chover de tempos em tempos.”

“Solidão não é problema”, disse ele, “mas precisa de tempo bom.”

“Talvez amanhã faça bom tempo.”

Se eu conseguisse colocá-lo em palavras, talvez fosse embora – ela estava pensando. Às vezes você consegue colocá-la em palavras – quase – e portanto livrar-se da coisa – quase. Às vezes, é possível dizer-se concedo que hoje tive medo, tive medo dos rostos lisos e lustrosos, dos rostos de rato, da maneira como riam no cinema. Tenho medo de escada rolante e olhos de boneca. Mas não existem palavras para este medo. As palavras ainda não foram inventadas.

Ela disse, “Quando parar de chover volto a gostar”.

“Você estava gostando ainda há pouco, não estava? Ali perto do rio?”

“Bom”, disse ela, “não. Não muito.”

“Estava só um pouco fantasmagórico ali essa noite. Que mais se pode esperar? Jamais escolha um lugar quanto estiver fazendo bom tempo.” (Ou qualquer outra coisa, ele pensou). “Há muitos pinheiros em volta”, ele disse. “Eles oprimem.”

“Sim.”

Mas não eram os pinheiros negros, ela pensou, nem o céu sem estrelas, nem a magra e insinuada lua, nem as baixas colinas de topo chato, nem o penhasco e as grandes rochas. Era o rio.

“O rio está muito quieto’, ela dissera. “Será por estar tão cheio?”

“A gente se habitua ao som, creio. Vamos entrar e acender a lareira do quarto. Queria tomar um trago. Daria tudo por um trago, e você?”

“Podemos tomar café”.

No caminho de volta, ele mantivera a cabeça voltada à água.

“Parece curiosamente metálico nesta luz. Nem de longe lembra água.”

“Parece liso, como se estivesse congelado. E muito mais largo.”

“Congelado – não. Bastante vivo, de alguma maneira insólita. Cabelo cascateando”, ele disse, como que de si para si. Pois então o sentira também. Deitada, ela ficou rememorando como o rio – veloz, marrom, de superfície rachada – mudara à luz da lua. As coisas são mais poderosas que as pessoas. Sempre acreditei nisso. (Filha minha não tem medo de cavalo. Filha minha não tem medo de enjoar no mar. Filha minha não tem medo dos contornos de uma colina, ou da lua quando fica velha. Na realidade, filha minha você não é).

“Não está silencioso agora, está?”, ela disse. “Refiro-me ao rio.”

“Não, daqui se ouve um barulho.” Ele bocejou. “Vou colocar mais um tronco no fogo. Muita gentileza da parte de Ransom nos ter cedido carvão e madeira. Ele não nos prometeu nenhum luxo do tipo quando decidimos pelo chalé. Não é mau sujeito, não acha?”

“Ele tem coração. E deve conhecer bem o clima local, afinal de contas.”

“Bom, eu gosto daqui”, ele disse ao voltar para a cama, “apesar da chuva. Sejamos felizes aqui”.

“Sim, sejamos”.

Essa é a segunda vez. Ele já disse isso antes. Ele o dissera no dia em que chegaram. Também naquela ocasião ela não respondera “sim” de imediato porque o medo que andava à sua espera se havia achegado e lhe tocado, e muitos segundos transcorreram até que conseguisse falar novamente.

“Aquilo que vimos no início da noite deve ter sido uma lontra”, ele disse, “era grande demais para ser um rato-de-água. Vou contar para o Ransom. Ele vai ficar muito animado.”

“Por quê?”

“Ah, são um bocado raras por estas bandas.”

“Coitadas. Aposto que devem sofrer muito, se são raras. O que ele vai fazer? Organizar uma caçada? Talvez não, já concordamos que ele tem bom coração. Isto aqui é um santuário de pássaros, sabia? É todo tipo de coisa. Vou contar para ele do pássaro com o peito amarelo. Talvez ele saiba dizer o que era.”

Aquela amanhã ela o observara voejando para cima e para baixo, junto à janela – espoco de amarelo na chuva. “Ah que pássaro bonito”. O medo é amarelo. Você é amarela. Ela é toda traçada em amarelo. Eles têm razão, o medo é de fato amarelo. “Não é bonito? E persistente? Está obstinado em entrar…”

“Vou apagar essa luz”, ele disse. “Não adianta de nada. A lareira é melhor.”

Ele riscou um fósforo para acender outro cigarro e quando este se iluminou ela pôde ver o encovado sob seus olhos, a pele retesada sobre as maçãs do rosto e o fino dorso do nariz. Ele estava sorrindo como se soubesse em que ela estivera pensando.

*

“Há algo que não lhe meta medo quando está com esses humores?”

“Você”, ela disse. O fósforo apagou. Não importa o que aconteceu, ela pensou. Não importa o que você fez. Não importa o que eu fiz. Você, nunca. Ouviu bem?

“Que bom.” Ele riu. “Isto é um alívio”.

“Amanhã vai fazer bom tempo, você vai ver. Daremos sorte”.

“Não conte com nossa sorte. Você já devia ter aprendido a essa altura”, ele resmungou. “Mas você é do tipo que não aprende nunca. Infelizmente, nós dois somos do tipo que não aprende nunca.”

“Está cansado? Você soa cansado.”

“Sim”. Ele suspirou e voltou-lhe as costas. “Estou sim, um bocado”. Quando ela disse, “Preciso acender a luz, quero uma aspirina”, ele não respondeu, e ela esticou o braço por cima dele e tocou no interruptor da fraca lâmpada. Ele estava dormindo. O cigarro aceso caíra sobre o lençol.

“Que bom que eu vi isso”, disse em voz alta. Ela apagou o cigarro, jogou-o pela janela, encontrou as aspirinas, esvaziou o cinzeiro, protelando o momento em que deveria esticar-se na cama novamente, à escuta, o momento em que fecharia os olhos para fatalmente senti-los se abrindo de novo com um clique.

Não caia no sono”, pensou ali deitada. “Fique acordado e me conforte. Estou com medo. Há qualquer coisa aqui que mete medo, estou lhe dizendo. Por que você não consegue senti-lo? Quando você disse, sejamos felizes, naquele primeiro dia, havia uma torneira pingando numa tina cheia em algum lugar, tocando uma melodia alegre e horrível. Você não ouviu? Eu ouvi. Não me volte as costas e suspire e durma. Fique acordado e me conforte”.

Ninguém vai confortá-la, ela disse para si própria, já devia ter aprendido a esta altura. Recomponha-se. Houve tempo em que você não tinha medo. Não houve? Quando? Quando foi este tempo? É claro que houve. Vamos. Recomponha-se, descomponha-se. Houve tempo. Houve tempo. Além do mais, vou dormir em breve. Há sempre o sono, e amanhã fará bom tempo.

“Sabia que hoje faria bom tempo”, ela pensou ao ver a luz do sol pelas finas cortinas. “O primeiro dia de tempo bom”.

“Está acordado?”, ela disse. “Está fazendo um dia lindo. Tive um sonho tão engraçado”, ela disse, fixando ainda a luz do sol. “Sonhei que estava caminhando por um bosque e as árvores gemiam e depois sonhei com vento nos fios de telégrafo, bom, era parecido, só que muito alto, ainda ouço – de verdade juro não estou inventando. Ainda está na minha cabeça e não é outra coisa senão talvez meio parecido com vento nos fios de telégrafo”.

“Está fazendo um dia lindo”, ela disse e tocou-lhe a mão.

“Minha nossa, como você está frio. Vou pegar uma garrafa de água quente e um pouco de chá. Vou pegá-los porque estou me sentindo muito enérgica hoje, você fique aí quietinho por uma vez na sua vida!”

“Por que não responde?”, ela disse, sentando-se e escrutando-o. “Você está me assustando”, ela disse, a voz elevada. “Está me assustando. Acorde”, ela disse e o sacudiu. Assim que o tocou seu coração inchou-se até atingir a boca. Inchou-se e dele brotaram pontudas garras e as garras lhe apanharam e fincaram fundo. “Deus”, ela disse, e levantou-se e abriu as cortinas e viu o rosto dele à luz do sol. “Deus”, ela disse, mirando-lhe o rosto no sol ajoelhada junto à cama com a mão dele entre suas duas mãos não falando não pensando mais.

*

O doutor disse, “Você não ouviu nada durante a noite?”

“Pensei que fosse um sonho”.

“Ah! Você pensou que fosse um sonho, entendi. Que horas acordou?”

“Não sei. Colocamos o relógio em outro cômodo porque o barulho era muito alto. Creio que por volta de oito e meia, nove”.

“Você entendeu o que havia se passado, naturalmente”.

“Não tinha certeza. A princípio, não tive certeza.”

“Mas o que fez? Já passava das dez quando você telefonou. O que fez?”

Nem palavra de conforto. Suspeita. Ele tem olhos pequenos e sobrancelhas espessas e parece suspeitar.

Ela disse, “Coloquei o casaco e fui até a casa do Sr .Ransom, onde há um telefone. Corri o trajeto inteiro, mas parecia muito longe.”

“Mas isso não deve ter lhe custado mais de dez minutos, no máximo”.

“Não, mas parecia muito longe. Corri porque parecia que eu não estava me mexendo. Quando cheguei lá não havia ninguém e o cômodo onde fica o telefone estava trancado. A porta da frente está sempre aberta, mas ele fecha aquele cômodo a chave quando sai. Voltei para a estrada e não havia ninguém lá. Ninguém na casa e ninguém na estrada e ninguém na encosta da colina. Havia muitos lençóis e camisas masculinas acenando de um varal. E o sol, claro. Nosso primeiro dia. Nosso primeiro dia bom”.

Ela olhou o rosto do doutor, parou e continuo com voz diferente.

“Andei para cima e para baixo um pouco. Não sabia o que fazer. Pensei então que talvez conseguisse arrombar a porta. Então tentei e arrombei. Uma tábua se rompeu e consegui entrar. Mas muito tempo pareceu se passar até que alguém me atendesse”.

Ela pensou, Sim, é claro que entendi, atrasei-me porque tive que ficar postada ali, à escuta. Naquela hora o ouvi. Ficou mais alto e mais próximo e estava no quarto comigo. Eu ouvi o som do rio.

Eu ouvi o som do rio.

Tradução de Ismar Tirelli Neto
Revisão de Tassia Kleine e Tiago Macedo

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