October 2016

Jean Rhys, “O Som do Rio”

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Nascida a 1890 na ilha caribenha de Domínica, a ficcionista Jean Rhys é mais conhecida por seu romance Vasto Mar de Sargaços (Wide Sargasso Sea), publicado em 1966, espécie de prequel ao clássico “Jane Eyre” em que a “louca do sótão”, primeira esposa do personagem principal, assume o protagonismo. Porém, a carreira literária de Rhys principia muito antes, em fins da década de 1920, após anos de deambulação e precariedade, tanto na Inglaterra quanto na França. Entre 1927 e 1939, Rhys publica boa quantidade de romances e coletâneas de contos, o mais dos casos tematizando as duras experiências vividas desde sua mudança para a Inglaterra, aos 16 anos. A secura e ironia de seu estilo, traços especialmente marcantes desta primeira produção, formam uma violenta aliança com a ternura mortificada que vota às figuras marginalizadas da sociedade. Seus relatos da “margem esquerda” oferecem ao leitor uma visão aterradora da alegre Paris dos anos 1920, infinitamente glamourizada por outros escritores que lá se fixaram ao longo da mesma década.

Além da tradução de Lea Viveiros de Castro para Vasto Mar de Sargaços, conhecemos de Jean Rhys apenas mais uma tradução ao português brasileiro – o romance “Bom-dia, Meia-Noite”, traduzido por Carmen Velasquez, dado à estampa em 1985 pela Art Editora (Coleção As Escritoras).

Oferecemos hoje uma tradução do conto “The Sound of the River”, publicado originalmente no volume Tigers Are Better-Looking, de 1968.


***

O Som do Rio

A lâmpada elétrica pendia de um curto cordão ao centro do teto, e como não havia luz suficiente para ler, ficaram deitados na cama, conversando. O ar noturno empurrava para fora as cortinas e entrava, suave e úmido, pela janela aberta.

“Mas do que você tem medo? Que quer dizer com ‘medo’?”

Ela disse, “Medo, como quando a gente quer engolir e não consegue”.

“O tempo inteiro?”

“Quase o tempo inteiro.”

“Francamente, meu bem. Você é de fato uma idiota”.

Quanto a isto não, ela pensou. Quanto a isto não.

“É só um humor,” disse ela. “Vai passar.”

“Você é tão inconsistente. Foi você que escolheu este lugar e quis vir para cá, pensei que o aprovasse”.

“Aprovo. Aprovo a várzea e a solidão e o arranjo todo, sobretudo a solidão. Gostaria apenas que parasse de chover de tempos em tempos.”

“Solidão não é problema”, disse ele, “mas precisa de tempo bom.”

“Talvez amanhã faça bom tempo.”

Se eu conseguisse colocá-lo em palavras, talvez fosse embora – ela estava pensando. Às vezes você consegue colocá-la em palavras – quase – e portanto livrar-se da coisa – quase. Às vezes, é possível dizer-se concedo que hoje tive medo, tive medo dos rostos lisos e lustrosos, dos rostos de rato, da maneira como riam no cinema. Tenho medo de escada rolante e olhos de boneca. Mas não existem palavras para este medo. As palavras ainda não foram inventadas.

Ela disse, “Quando parar de chover volto a gostar”.

“Você estava gostando ainda há pouco, não estava? Ali perto do rio?”

“Bom”, disse ela, “não. Não muito.”

“Estava só um pouco fantasmagórico ali essa noite. Que mais se pode esperar? Jamais escolha um lugar quanto estiver fazendo bom tempo.” (Ou qualquer outra coisa, ele pensou). “Há muitos pinheiros em volta”, ele disse. “Eles oprimem.”

“Sim.”

Mas não eram os pinheiros negros, ela pensou, nem o céu sem estrelas, nem a magra e insinuada lua, nem as baixas colinas de topo chato, nem o penhasco e as grandes rochas. Era o rio.

“O rio está muito quieto’, ela dissera. “Será por estar tão cheio?”

“A gente se habitua ao som, creio. Vamos entrar e acender a lareira do quarto. Queria tomar um trago. Daria tudo por um trago, e você?”

“Podemos tomar café”.

No caminho de volta, ele mantivera a cabeça voltada à água.

“Parece curiosamente metálico nesta luz. Nem de longe lembra água.”

“Parece liso, como se estivesse congelado. E muito mais largo.”

“Congelado – não. Bastante vivo, de alguma maneira insólita. Cabelo cascateando”, ele disse, como que de si para si. Pois então o sentira também. Deitada, ela ficou rememorando como o rio – veloz, marrom, de superfície rachada – mudara à luz da lua. As coisas são mais poderosas que as pessoas. Sempre acreditei nisso. (Filha minha não tem medo de cavalo. Filha minha não tem medo de enjoar no mar. Filha minha não tem medo dos contornos de uma colina, ou da lua quando fica velha. Na realidade, filha minha você não é).

“Não está silencioso agora, está?”, ela disse. “Refiro-me ao rio.”

“Não, daqui se ouve um barulho.” Ele bocejou. “Vou colocar mais um tronco no fogo. Muita gentileza da parte de Ransom nos ter cedido carvão e madeira. Ele não nos prometeu nenhum luxo do tipo quando decidimos pelo chalé. Não é mau sujeito, não acha?”

“Ele tem coração. E deve conhecer bem o clima local, afinal de contas.”

“Bom, eu gosto daqui”, ele disse ao voltar para a cama, “apesar da chuva. Sejamos felizes aqui”.

“Sim, sejamos”.

Essa é a segunda vez. Ele já disse isso antes. Ele o dissera no dia em que chegaram. Também naquela ocasião ela não respondera “sim” de imediato porque o medo que andava à sua espera se havia achegado e lhe tocado, e muitos segundos transcorreram até que conseguisse falar novamente.

“Aquilo que vimos no início da noite deve ter sido uma lontra”, ele disse, “era grande demais para ser um rato-de-água. Vou contar para o Ransom. Ele vai ficar muito animado.”

“Por quê?”

“Ah, são um bocado raras por estas bandas.”

“Coitadas. Aposto que devem sofrer muito, se são raras. O que ele vai fazer? Organizar uma caçada? Talvez não, já concordamos que ele tem bom coração. Isto aqui é um santuário de pássaros, sabia? É todo tipo de coisa. Vou contar para ele do pássaro com o peito amarelo. Talvez ele saiba dizer o que era.”

Aquela amanhã ela o observara voejando para cima e para baixo, junto à janela – espoco de amarelo na chuva. “Ah que pássaro bonito”. O medo é amarelo. Você é amarela. Ela é toda traçada em amarelo. Eles têm razão, o medo é de fato amarelo. “Não é bonito? E persistente? Está obstinado em entrar…”

“Vou apagar essa luz”, ele disse. “Não adianta de nada. A lareira é melhor.”

Ele riscou um fósforo para acender outro cigarro e quando este se iluminou ela pôde ver o encovado sob seus olhos, a pele retesada sobre as maçãs do rosto e o fino dorso do nariz. Ele estava sorrindo como se soubesse em que ela estivera pensando.

*

“Há algo que não lhe meta medo quando está com esses humores?”

“Você”, ela disse. O fósforo apagou. Não importa o que aconteceu, ela pensou. Não importa o que você fez. Não importa o que eu fiz. Você, nunca. Ouviu bem?

“Que bom.” Ele riu. “Isto é um alívio”.

“Amanhã vai fazer bom tempo, você vai ver. Daremos sorte”.

“Não conte com nossa sorte. Você já devia ter aprendido a essa altura”, ele resmungou. “Mas você é do tipo que não aprende nunca. Infelizmente, nós dois somos do tipo que não aprende nunca.”

“Está cansado? Você soa cansado.”

“Sim”. Ele suspirou e voltou-lhe as costas. “Estou sim, um bocado”. Quando ela disse, “Preciso acender a luz, quero uma aspirina”, ele não respondeu, e ela esticou o braço por cima dele e tocou no interruptor da fraca lâmpada. Ele estava dormindo. O cigarro aceso caíra sobre o lençol.

“Que bom que eu vi isso”, disse em voz alta. Ela apagou o cigarro, jogou-o pela janela, encontrou as aspirinas, esvaziou o cinzeiro, protelando o momento em que deveria esticar-se na cama novamente, à escuta, o momento em que fecharia os olhos para fatalmente senti-los se abrindo de novo com um clique.

Não caia no sono”, pensou ali deitada. “Fique acordado e me conforte. Estou com medo. Há qualquer coisa aqui que mete medo, estou lhe dizendo. Por que você não consegue senti-lo? Quando você disse, sejamos felizes, naquele primeiro dia, havia uma torneira pingando numa tina cheia em algum lugar, tocando uma melodia alegre e horrível. Você não ouviu? Eu ouvi. Não me volte as costas e suspire e durma. Fique acordado e me conforte”.

Ninguém vai confortá-la, ela disse para si própria, já devia ter aprendido a esta altura. Recomponha-se. Houve tempo em que você não tinha medo. Não houve? Quando? Quando foi este tempo? É claro que houve. Vamos. Recomponha-se, descomponha-se. Houve tempo. Houve tempo. Além do mais, vou dormir em breve. Há sempre o sono, e amanhã fará bom tempo.

“Sabia que hoje faria bom tempo”, ela pensou ao ver a luz do sol pelas finas cortinas. “O primeiro dia de tempo bom”.

“Está acordado?”, ela disse. “Está fazendo um dia lindo. Tive um sonho tão engraçado”, ela disse, fixando ainda a luz do sol. “Sonhei que estava caminhando por um bosque e as árvores gemiam e depois sonhei com vento nos fios de telégrafo, bom, era parecido, só que muito alto, ainda ouço – de verdade juro não estou inventando. Ainda está na minha cabeça e não é outra coisa senão talvez meio parecido com vento nos fios de telégrafo”.

“Está fazendo um dia lindo”, ela disse e tocou-lhe a mão.

“Minha nossa, como você está frio. Vou pegar uma garrafa de água quente e um pouco de chá. Vou pegá-los porque estou me sentindo muito enérgica hoje, você fique aí quietinho por uma vez na sua vida!”

“Por que não responde?”, ela disse, sentando-se e escrutando-o. “Você está me assustando”, ela disse, a voz elevada. “Está me assustando. Acorde”, ela disse e o sacudiu. Assim que o tocou seu coração inchou-se até atingir a boca. Inchou-se e dele brotaram pontudas garras e as garras lhe apanharam e fincaram fundo. “Deus”, ela disse, e levantou-se e abriu as cortinas e viu o rosto dele à luz do sol. “Deus”, ela disse, mirando-lhe o rosto no sol ajoelhada junto à cama com a mão dele entre suas duas mãos não falando não pensando mais.

*

O doutor disse, “Você não ouviu nada durante a noite?”

“Pensei que fosse um sonho”.

“Ah! Você pensou que fosse um sonho, entendi. Que horas acordou?”

“Não sei. Colocamos o relógio em outro cômodo porque o barulho era muito alto. Creio que por volta de oito e meia, nove”.

“Você entendeu o que havia se passado, naturalmente”.

“Não tinha certeza. A princípio, não tive certeza.”

“Mas o que fez? Já passava das dez quando você telefonou. O que fez?”

Nem palavra de conforto. Suspeita. Ele tem olhos pequenos e sobrancelhas espessas e parece suspeitar.

Ela disse, “Coloquei o casaco e fui até a casa do Sr .Ransom, onde há um telefone. Corri o trajeto inteiro, mas parecia muito longe.”

“Mas isso não deve ter lhe custado mais de dez minutos, no máximo”.

“Não, mas parecia muito longe. Corri porque parecia que eu não estava me mexendo. Quando cheguei lá não havia ninguém e o cômodo onde fica o telefone estava trancado. A porta da frente está sempre aberta, mas ele fecha aquele cômodo a chave quando sai. Voltei para a estrada e não havia ninguém lá. Ninguém na casa e ninguém na estrada e ninguém na encosta da colina. Havia muitos lençóis e camisas masculinas acenando de um varal. E o sol, claro. Nosso primeiro dia. Nosso primeiro dia bom”.

Ela olhou o rosto do doutor, parou e continuo com voz diferente.

“Andei para cima e para baixo um pouco. Não sabia o que fazer. Pensei então que talvez conseguisse arrombar a porta. Então tentei e arrombei. Uma tábua se rompeu e consegui entrar. Mas muito tempo pareceu se passar até que alguém me atendesse”.

Ela pensou, Sim, é claro que entendi, atrasei-me porque tive que ficar postada ali, à escuta. Naquela hora o ouvi. Ficou mais alto e mais próximo e estava no quarto comigo. Eu ouvi o som do rio.

Eu ouvi o som do rio.

Tradução de Ismar Tirelli Neto
Revisão de Tassia Kleine e Tiago Macedo

***

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Russell Edson

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Lemos em alguma parte que Russell Edson costumava referir-se a si próprio como O Pequeno Senhor Poema em Prosa. Tendo explorado as possibilidades do formato por quase toda sua carreira literária, Edson é tido por grande parte da crítica especializada como o grande consolidador deste tipo de escrita nas letras americanas. “Antes de tornar-se moda”, lemos também em alguma parte. E também, cabe ressaltar, depois do Sr. Plume de Henri Michaux, cujas desventuras vieram a público originalmente em fins dos anos 1930; depois também de Gertrude Stein atentar contra a bem estância do público leitor de então com seu Tender Buttons, volume em que jarras, xícaras e demais utensílios são a todo tempo “tornados” inúteis por um sistema de escrita que lhes recusa função e sentido no plano mesmo da linguagem.

Reconhecemos nos personagens e nas situações imaginadas por Edson – nascido em Connecticut e filho de pai cartunista – tanto a aguerrida patetice de Plume quanto a perturbadora iminência de inutilidade que perpassa os textos de Tender Buttons, mas com algumas diferenças. Há mais ternura desafetada nos construtos de Edson; as figuras, humanas ou não, de que lança mão em suas composições raramente nos chegam nomeadas, particularizadas, ainda assim destacando-se nos textos como cores primárias em meio a um quadro cinzento, feito ele próprio das indistinções do mundo à nossa volta. Não há, porém, um Plume para centralizar a perplexidade diante de um mundo absurdo, e o tal absurdo não é textualizado com a opacidade estudada de um Tender Buttons. A recusa do extraordinário na dicção de Edson – “um homem”, “uma mulher”, “uma mãe”, “um filho”, “uma casa”, “um macaco” – envia-nos ora à fábula, ora ao causo, mas sobretudo à falência de ambos os modos. Este mau funcionamento do texto – que, por se apresentar como fábula, desejamos claro em sua instrução moral; e por se apresentar como causo, desejamos divertido de forma leve e sem muita ressonância –, porém, não só não frustra o leitor, como sugere que há muitas maneiras de habitar o desarrazoado do mundo em que vivemos.

Os poemas abaixo foram traduzidos a partir do volume The Tunnel: Selected Poems, publicado em 1994, dez anos antes de seu falecimento.

*

Amor

Cão, me ame, disse um homem a um cão. Um cão não disse nada.
Contudo um caco de vidro quando acertadamente com o sol brilhou para dentro de seu olho – eu te ouço, disse o homem.
Contudo uma folha retorcendo-se em seu caule pois o vento queria ir a alguma parte fez o homem tornar a si – Quer dizer que está dizendo tal e coisa, disse.
Ele reparou nas rugas em seu sapato – Estiramento muscular que é o que é um sorriso; meu sapato está sorrindo para mim. Sapato, te amo, me ame. Contudo o sapato limitou-se a caminhar, sua cabeça pairando acima…
Cabeça, cabeça, me ame, ele disse à sua cabeça.
Sua cabeça tinha uma narina. Ele a sentia. Havia duas. Uma narina devia ter tido nenê.
Contudo sua narina soprava ar nos seus dedos.
Também posso soprar ar numa narina. Então ele entortou os lábios e soprou ar em suas narinas.

Love

Dog, love me, said a man to a dog. A dog said nothing.
But a piece of glass when properly with the sun glittered into his eye — I hear you, said the man.
But a leaf wristing on its stem because the wind wanted to go someplace, turned the man to itself — So you are saying such and such, he said.
He noticed wrinkles on his shoe — Muscle stretch which is what a smile is; my shoe is smiling at me. Shoe, I love you, love me. But his shoe merely walked on, his head hovering above it . . .
Head, head, love me, he said to his head.
His head had a nostril. He felt it. There were two. One nostril must have had a baby.
But his nostril blew air at his fingers.
I can blow air at a nostril too. So he screwed up his lips and blew air at his nostrils.

*

Um bigode vermelho

Uma mulher corpulenta com um pau de macarrão disse, eu sou o rei.
Uma mosca pousou em seu nariz. Ela acertou a mosca em seu nariz com seu pau de macarrão. Não perturbe Sua Alteza com trivialidades, disse, enquanto o sangue de seu nariz formava um bigode vermelho.
Querida, disse seu esposo, você está com um bigode vermelho.
A mulher que é rei recuou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho.
A mulher que é rei avançou.
Seu esposo observou seu bigode vermelho e disse, querida, que bigode vermelho é esse?
Sou rei de todas as coisas, ela disse, sou rei Mamãe.
E o pau de macarrão, meu bem?, ele disse.
É o cetro da brutalidade, ela disse.
E o avental e o cabelo em seu pequeno e engordurado coque? disse ele.
Que é a fortaleza e a imagem que o povo virá a temer, ela disse.
E o bigode vermelho, tão fora de esquadro numa gorda dona de casa de meia-idade? ele disse.
O bigode vermelho ao qual você constantemente se refere é o brasão do mandato, a troca de gênero, o golpe autoinfligido, a pelugem secundária de minha virilidade, o fim de minha menopausa, o retorno à donzelice, o mênstruo cerebral escorrendo pelo nariz em vez das partes baixas…, ela disse.
Mas e o bigode vermelho? ele disse.
Se faz mesmo questão de saber, matei uma mosca no meu nariz com um pau de macarrão, ela disse.
Matou não, ela está voando ali pelo teto, ele disse.
Veja só, está na sua cabeça, ela disse.
Alto lá, ele gritou.
Tenho que matá-la, ela disse.
Não, não faça isso, ele gritou.
Vai pousar no meu nariz, ela disse.
Ó por favor limpe o sangue do rosto e vá tratar da janta, ele gritou.
Ó ó ó, berrou ela, não sei o que fazer. Ó ó ó…
Lave o rosto, ele disse.
Não, isto não é coisa que se faça, ó ó ó, berrou ela.
Bem o que é que é isso de repente de bigode vermelho? ele disse.
Ó quero ser amada mais que todo o restante, ó ó ó…. ela berrou.

A Red Mustache

A heavy woman with a rolling pin said, I am the king.
A fly lighted on her nose. She hit the fly on her nose with her rolling pin. Do not disturb her highness with trivialities, she said, as the blood from her nose formed a red mustache.
Darling, said her husband, you have a red mustache.
The woman who is king backed up.
Her husband watched her red mustache.
The woman who is king came forward.
Her husband watched her red mustache and said, darling, what’s with the red mustache?
I am king of everything, she said, I am king Mama.
And the rolling pin, dearest? he said.
Is the scepter of brutality, she said.
And the apron and the hair in its greasy little bun? he said.
Which is the fortress and the image that people shall come to fear, she said.
And the red mustache, so outlandish on a fat middle-aged hausfrau? He said.
The red mustache which you constantly refer to is the sign of office, the change of gender, the self inflicted blow, the secondary hair of my manhood, the end of my menopause, the return to maidenhood, the cerebral menses from my nose instead of my under part . . . , she said.
But what about the red mustache? he said.
If you really must know I killed a fly on my nose with a rolling pin, she said.
No you didn’t, he’s flying around on the ceiling, he said.
Oh look, he’s on your head, she said.
Hold it, he screamed.
I must kill it, she said.
No, don’t, he screamed.
It’ll get on my nose, she said.
Oh please clean the blood off your face and cook dinner, he screamed.
Oh oh oh, she cried, I do not know what to do. Oh oh oh . . .
Wash your face, he said.
No, that is not a thing to do, oh oh oh, she cried.
Well what is it, suddenly, with that red mustache? he said.
Oh I want to be loved more than all things else, oh oh oh . . . , she cried.

*

Aparição

Havia por vezes uma paisagem onde uma rocha uma pessoa e uma pedrinha e será que vai chover algum dia se juntaram certo dia para aparecer.
Havia uma paisagem que tornou-se um quarto para buscar uma casa, para lá resolver ficar, depois envelhecer na casa que encontrar.
Então o sol entrou pela janela de um quarto e despertou uma pessoa que pôs o café dentro de uma xícara dentro de sua cabeça.

Appearance

There was a landscape once in a while where a rock a person and a pebble and will it rain one day, gathered one day to appear.
There was a landscape that became a room to search for a house, to decide to stay there, then to be old in a house it finds.
And so the sun came in a room’s window and woke a person who poured coffee out of a cup into his head.

*

Ser de alguma utilidade

Se a cabeça pudesse ser transformada numa espécie de galpão para animais seria possível fazer um bom dinheiro, pequenos animais de que pudéssemos lucrar os ovos ou a pelagem, fazendo-se necessário portanto partir e tratar então de certos negócios.

Havia certa pedra que no meio de um bosque foi muito exitosa, mas isto não é para mim.
Menino, quisera me tornar um automóvel, mas cresci e me tornei um homem de trinta anos.

Executar trabalhos úteis como erguer a mão ar adentro e beliscar a parte de baixo de uma nuvem.

O caminhar sobre os quadrados negros do linóleo da cozinha da mãe poderia ser revertido em lucro, digamos, prendendo-se um barbante ao ouvido de um indivíduo o qual poderia estar ligado numa cidade longínqua à boca de um boneco, ou através do Oceano Atlântico a um moinho holandês em dia de pouco vento.
Ou um bocejo poderia ser utilizado como prelúdio ao sono.

Disse à mãe que a cabeça poderia ser usada para abrigar peixes tropicais, e disso se poderia cavar uma renda modesta – um por assim dizer negócio por correspondência, remeter-se a si próprio num caixão – poupando gastos com contadores retendo-se, por assim dizer, o negócio na própria cabeça.
A mãe me deu um tapa na boca, coisa de difícil interpretação.

Para não me sentir muito inútil hoje em dia mantenho-me ocupado fumando cigarros e bebendo café. Não me oponho a gastar meu tempo dormindo contanto que esteja fazendo algo útil com meu tempo.

Tivesse eu mais braços e pernas consideraria seriamente me tornar a armação de um guarda-chuva – com alguma excitação sexual meu pênis poderia fazer as vezes de cabo – já não é ele usado para ajudar velhas senhoras a subir e descer escadas.

Por vezes apenas respiro. Já fez isso, pergunto. Digo à mãe, veja estou respirando.
Obtenho pouco reconhecimento – ou então minha mãe é parcimoniosa com seus elogios apenas para que eu não me acomode sobre os louros – que eu mantenha um olhar firme e constante à escuridão que os outros optam por chamar de futuro.

Busco uma terra onde eu possa ser de alguma utilidade – ou, posto melhor, que minha utilidade possa obter algum reconhecimento – que, em outras palavras, a mãe possa eventualmente escrever ao deputado de sua predileção acerca de meu valor – e que os jornais possam encher-se de matérias ilustradas intituladas: Ele Fuma Um Cigarro – Ele Consegue Respirar – Etc. E que multidões se postem do lado de fora da casa, dando vivas enquanto durmo.

Talvez me desse sorte beijar o rosto do relógio da cozinha. Talvez suas mãozinhas me envolvessem extáticas o pescoço, e seríamos então felizes.

Estou certo de que a felicidade não está muito longe.

To Be of Some Use

If the head could be converted into a sort of shack for animals one might turn a pretty penny, small animals that profit one their eggs and fur, as one must leave and so make certain business arrangements.

There was a certain stone that did very well in the middle of a wood, but then that is not for me.
As a child I had wanted to become an automobile, but then I grew up to be 30 years old.

To do useful work like lifting one’s hand into the air and pinching the underside of a cloud.

The walking of the black squares on the linoleum in mother’s kitchen might be turned to profit, say by hooking a string to one’s ear which could be attached in a distant city to a dummy’s mouth, or across the Atlantic to a Dutch windmill on a day when there is little wind.
Or a yawn might be used as a prelude to sleep.

I said to mother the head might be used to keep tropical fish in, and one might carve out a small income — a mailorder business so to speak, mailing oneself in a coffin — saving the costs of a book-keeper by, so to speak, having the business in one’s head.
Mother slapped me across my mouth, which one is hard put to interpret.

Not to feel too useless these days I keep myself busy smoking cigarettes and drinking coffee. I am not against spending my time sleeping just as long as I am doing something with my time.

Had I more arms and legs I would seriously consider becoming the frame for an umbrella — with some sexual arousement my penis could be used as the handle — Is it not already used to help old ladies up and down stairs.

Sometimes I just breathe. Did you ever do that. I say to mother, look I am breathing. I get little recognition — or mother is scanty with praise only that I might not rest on my laurels — that I will keep a firm and steady gaze into the darkness that others choose to call the future.

I seek a land where I might become of some use — or rather my use might come to some recognition — that in other words, mother might come eventually to write her congressman of my worth — and that the daily papers might be filled with picture stories, titled: He Smokes A Cigarette — He Can Breathe — Etc. And that crowds might stand outside the house cheering me as I sleep.

Perhaps I should kiss the face of the kitchen clock for luck. Perhaps its little hands with rapture would encircle my neck, and we might be happy.

I am sure happiness is not too far away.

*

O Épico

Eles perderam o bebê no esgoto. Pode ser que corram até o mar, onde o esgoto é esvaziado. Ou pode ser que fiquem esperando lá onde o perderam; quiçá volte do futuro, tendo encontrado sob a cidade a sua idade viril.
Decerto correm o risco de o bebê se ter tornado lixo, uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Ela não está certa de que poderia amar uma casca de laranja com um saco de miúdos de galinha.
Não tem problema, meu bem, porque tudo sucede sob o sorriso de Deus.
Mas por que, em nome de Deus, Ele está sorrindo?
Porque Ele sabe o final.
Mas não estamos ainda caminhando para lá?
Sim; mas Ele já viu diversas vezes.
Viu o que diversas vezes?
Esse filme, que Ele produziu e dirigiu. No qual Ele estrelou… Sabe, aquele em que Ele desempenha todos os papéis num elenco de bilhões… a história de um marido e mulher que perdem seu bebê no esgoto…
Ah, esse filme; chorei do início ao fim.

The Epic

They have lost their baby down a sewer. They might run to the sea where the sewer empties. Or they might wait where they have lost him; perhaps he returns out of the future, having found his manhood under the city.
Surely they risk his having turned to garbage, an orange peel with a bag of chicken guts.
She is not sure she could love an orange peel with a bag of chicken guts.
It’s okay, honey, because everything happens under the smile of God.
But why, in heaven’s name, is He smiling?
Because He knows the end.
But aren’t we still getting there?
Yes; but He’s seen it several times.
Seen what several times?
This movie, the one He produced and directed. The one He starred in
. . . You know, the one where He plays all the parts in a cast of billions
The story of a husband and wife losing their baby down a sewer . . .
Oh that movie; I cried through the whole thing.

*

O Reino

… Curioso, meu relógio está derretendo no meu pulso.
Será que é doloroso?
Tenho vivido em minha mente.

Lá pelas províncias de minhas extremidades, onde todo acontecimento parece central, um simples populacho de dedos, por hábitos jungido, começa a deparar provas de que a natureza está, afinal, mudando de ideia.

Lá pela província de meu pulso esquerdo, meu relógio está derretendo – mãos esticadas, crispam-se de volta para o seu seio de números no repentino calor. A súplica de um velho.
Tempo, o trazedor, por fim a tudo arruína.

Tenho vivido em minha mente. A dor cavalga para dentro. Já não me importo; o rei está doente de dúvida.

The Kingdom

. . . That’s funny, my watch is melting on my wrist.
I wonder if it’s painful?
I have been living in my mind.

Out in the provinces of my extremities, where any event seems central, a simple folk of fingers, yoked in habits, are beginning to find evidence that nature is at last changing its mind.

Out in the province of my left wrist, my watch is melting — hands reaching out, curl back to their breast of numbers in the sudden heat. An old man’s supplication.
Time the bringer, finally ruins everything.

I have been living in my mind. Pain rides in. I no longer care; the king is sick with doubt.

*

Como estão indo as coisas

para Michael Cuddihy

Um homem registra alguns pombos num hotel. Eles voam para seus quartos. Não está certo de que sua mente não voe com eles…
Ele pergunta ao recepcionista se tudo parece direito. Gostaria de saber se a fumaça saindo de seu cigarro é real, ou não será algo que a gerência do hotel mandou pintar na parede?
O recepcionista deu-lhe as costas e está separando a correspondência.
Senhor…, diz o homem.
Mas o recepcionista continua organizando a correspondência.
Senhor, poderia olhar nesta direção um instante?
Posso ouvi-lo, estou só separando a correspondência.
Gostaria que reparasse na fumaça do meu cigarro… Já que os pombos voaram para os seus quartos… O futuro, nunca se sabe, quer dizer, em que pé as coisas vão ficar… Por gentileza, poderia verificar minha fumaça…?
Quando o recepcionista se volta o seu rosto está coberto de cabelo, como a parte de trás de sua cabeça; e a frente de seu corpo é como a parte de trás de seu corpo.
Onde está sua frente?
Meu irmão gêmeo tem as frentes; eu nasci com duas costas… era sempre eu quem levava as surras… mas por que amargar o passado?
É uma boa filosofia.
Minha melhor disciplina.
… Diga-me, as coisas estão se endireitando?
Até agora, tudo bem…

How Things Are Turning Out
for Michael Cuddihy

A man registers some pigeons at a hotel. They fly up to their rooms. He’s not sure that his mind doesn’t fly with them . . .
He asks the desk clerk if everything seems all right. He would like to know if the smoke coming out of his cigarette is real, or something the management has had painted on the wall?
The desk clerk has turned his back and is sorting the mail.
Sir . . . , says the man.
But the desk clerk continues to arrange the mail.
Sir, would you look this way for a moment?
I can hear you, I’m just sorting the mail.
I wanted you to notice the smoke of my cigarette . . . Since the pigeons flew up to their rooms . . . You never know about the future, I mean how things will finally turn out . . . Please, could you check my smoke . . . ?
When the desk clerk turns his face is covered with hair, like the back of his head; and the front of his body is like the back of his body.
Where is your front?
My twin brother has the fronts; I was born with two backs . . . I always got the spankings . . . But why regret the past?
That’s good philosophy . . .
My best subject.
. . . Tell me, is everything turning out all right?
So far so good . . .

 

Traduções de Ismar Tirelli Neto

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