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O papel da localização no trabalho de um tradutor

Bem-vindos ao blog da Ó Editorial!

A princípio, atualizaremos este espaço a cada 15 dias. No que diz respeito aos temas, você encontrará aqui discussões de ordem prática que interessarão sobretudo a outros profissionais do texto, posts sobre literatura, cinema e outras artes, informações sobre tradução e, claro, as novidades da Ó.

Para começar, trataremos brevemente da situação atual do mercado da tradução no que diz respeito a dois conceitos: localização e globalização.

Em qualquer área do conhecimento, é notável uma tendência de uniformização das informações em nível global – sobretudo nos contextos industriais e comerciais. Com esse movimento, obtém-se uma circulação mais efetiva e precisa dos dados relevantes para a atuação desses segmentos profissionais.

Para que dados ou produtos submetidos à globalização alcancem outras culturas de maneira satisfatória, entretanto, é fundamental que sejam submetidos aos processos de localização, que são, em suma, adaptações pelas quais os itens passam para se adequarem às especificidades do público ao qual se destinam. Essas adequações são feitas a partir de considerações sobre os possíveis públicos-alvo e se deixam notar de maneira mais clara no trato com softwares, jogos de videogame e websites.

Na hora da tradução, por exemplo, não devem ser levados em conta apenas a transposição de um idioma a outro e aspectos linguísticos referentes ao país ou região ao qual o produto será adaptado. Outras especificidades dos possíveis consumidores – como faixa etária e grupos sociais e étnicos – mostram-se igualmente importantes. Um bom exemplo é a opção, no jogo Grand Theft Auto V, de traduzir, na versão brasileira, O.G. (Original Gangster) por Vida Loka – com K mesmo, o que faz todo sentido no contexto representado no jogo.

GTA-V-ptbr-1

O conteúdo textual de websites também pode ser modificado no decorrer dos processos de localização. É frequente que metáforas e exemplos que funcionem melhor na cultura-alvo substituam aqueles de que se compunham os textos originais, por exemplo.

Além da dimensão idiomática, outros fatores fazem parte do escopo da localização. Entre eles:

– adaptação dos produtos originais às normas e regulamentações vigentes na localidade em que estes serão implementados;

– adequação de unidades monetárias e de medida;

– modificação de conteúdo de acordo com o gosto e as necessidades do público-alvo – dados que serão levantados pelos institutos responsáveis pela localização;

– adaptação do design e do layout ao texto traduzido;

– emprego dos formatos adequados de data, hora, endereços e números de telefone.

São muitos os exemplos de êxito e de fracasso justificados pelo modo de execução da localização. Trata-se, assim, de um trabalho que demanda pesquisa e atualização constantes e desapego da noção de que toda tradução deva ser realizada de forma estritamente literal para ser adequada. Por trás dessa tarefa tão contraditória – atender ao máximo as solicitações locais para viabilizar a globalização de produtos –, é possível vislumbrar a radicalização dos discursos que questionam e desconstroem a ideia de fidelidade no âmbito da tradução.